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O cadáver e o necrotério

October 15th, 2006 · 1 Comment

Sou conservador: a arte ainda é feita de gêneros. Grande Sertão: Veredas é uma obra literária, mas nunca um romance; talvez, arrisco-me a dizer, um “canto em prosa”. Os moedeiros falsos do André Gide, por exemplo, ainda que sejam de vanguarda, sempre serão um romance, pois só a estrutura narrativa do conteúdo foi trabalhada. Um grande erro é se pensar que romance deve ter linguagem, o que ele tem é estilo. Poesia, sim, é linguagem.

Não digo, no entanto, que se devem perpetuar os gêneros antigos mas que novos gêneros precisam explicar a nova obra.

E, acima de tudo, uma obra de arte tem como única (ou grande) função ir às raízes do ser humano, de modo que o leitor/apreciador seja-lhe um participante efetivo. Emaranhados de conceito-só-conceitos não são arte. São, na verdade, a chamada “arte contemporânea”.

Segundo a Manoela Afonso, eu ainda sou modernista, porque não me despojei dos gêneros e da necessidade de uma obra ser “viva”. Ela também o é, isso se percebe em seus desenhos/pinturas.

Logo, a arte contemporânea poderia ser representada por um necrotério. Há ali algo sem vida; e assim vai-se buscar o número máximo de conceitos em determinada obra que, na prática, é um cadáver. Aí, faz-se um catálogo de coisas que foram ditas — quanto mais referências filosóficas melhor, mais arte!

Diria George Lukács, trata-se de uma arte monográfica, monótona e diluída.

Isso explica muito sobre a arte que se faz hoje.

Atualização 21:42: Saiu no UOL a Mira Schendel, que só me reforça o argumento exposto neste post; esteticamente suas ilustrações são bonitas, mas não criam tensão como, por exemplo, Van Gogh.

Tags: Arte

1 response so far ↓

  • 1 Vinícius de Melo Justo // Oct 18, 2006 at 18:25

    Primeiramente, defina “linguagem” para dizer que romances não têm linguagem (ou não devem ter). Separar “estilo” de “linguagem” é até louvável, mas afirmar que um romance não tenha os dois, somente o primeiro, é no mínimo equivocado. “Grande Sertão”, usado como exemplo, configura-se conservadoramente como romance, visto que possui as características principais que se “exige” de um romance. A classificação sempre atenderá a princípios bem definidos. A extinção desses princípios não configura por si só um avanço, mas a justificativa da extinção sim. Lembremos que uma obra literária é pensada, como tal, para atender determinados aspectos literários. Oras, então a desclassificação completa criaria uma destituição de toda a construção básica da obra. “Ulisses” não deixará de ser romance por experimentar formas estranhas ao romance. Deixaria (embora seja uma discussão árida no caso de Joyce) de ser romance a partir do momento que não possuísse as características necessárias para definirmos a obra como romance. No caso do Grande Sertão, o que necessariamente o configura como canto? GS:V é todo constituído de uma ação diálogo-monológica, intensamente narrativa, de vários núcleos, mas com uma clara orientação de enredo, sentido, estrutura, e todas as outras partes de uma narrativa. Estruturalmente não se distingue tanto de outra obra brasileira, o Dom Casmurro (da qual tenho certeza que você não vai duvidar da classificação como romance). A recriação da linguagem da obra não é caráter exclusivo da poesia (creio que você se refere à Lírica), pois se fosse, toda obra literária seria poesia lírica, pois todas pensam a linguagem como uma escolha paradigmática e sintagmática, como recriação ideal e formal. Qualquer exemplo de narrativa provará isso. A não ser que sua definição de linguagem seja outra; se assim for, a explanação requerida no início deste comentário se torna imprescindível.

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