Eu flutuo, é como se eu flutuasse. Eu, que me entranhei no Duas mulheres correndo na praia; eu, que sou um observador distante. Simultaneamente, tudo se converge em mim. As duas mulheres correm, uma fica para trás — embora estejam em sintonia. E as nuvens indicam por onde se deve correr. Recomendações a mim e a elas que ironicamente conseguem se distanciar de si — e há um braço a frente que vai construindo o caminho. Mas eu nada posso, estou preso a cada lance, cada gesto, cada areia que se move.
Este céu inexato e exato, um le mot juste, lembra-me o Tchekhov de uma das mais belas descrições da literatura: “Fez despencar do céu a sua estrela de luz pálida, que caíra e perdera-se na escuridão da noite; ela não mais retornaria ao céu, pois aos homens só é dado viver uma vez, a vida não se repete. Se fosse possível trazer de volta os dias e anos passados, então ele substituiria a mentira pela sinceridade, o ócio pelo trabalho, o tédio pela alegria, restituiria a pureza de quem a arrancara, encontraria Deus e a verdade — mas isso tudo era tão impossível quanto tornar a pôr a estrela cadente no céu”.
Não tenciono uma relação forçosa, os fenômenos naturais são bem diferentes, obviamente. O que importa é a vida que traz tudo isso. É rara a inter-relação humano/natural tão útil, tão apenas deleite, tensão, mas não menos reveladora. Porque, neste quadro, o humano só pode existir com o que as nuvens e a praia infinita indicam. E o humano indica que gradativamente não se deve querer as nuvens — a mais depressa das duas mulheres não alcança as nuvens. A outra sim, porque ela goza com a corrida e com o que ela procura lá em cima (Deus?), está alterada.
Mas, mais que duas mulheres, há apenas uma. Assim como eu. O leitor é um único e ele segue por tantos caminhos! Mas como podem elas estarem de mãos atadas? Tudo o que somos dá as mãos para tudo o que desejamos, transmutando-se em um ser único, um éter.
Deus é o mais humano e mais natural dos fenômenos, é simultaneamente criação e verdade. Uma máscara dessa mulher vira-me a cara, a outra permite que eu a veja e permite a si que veja a Deus.
Eu, enfim, sou a mulher despreocupada com o seio à vista, estou feliz e só quero percorrer a praia neste dia agradável. A mim é permitido ter alegrias.


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