Perambulagens


Viver como arte

April 24th, 2007 · No Comments

Nem só de literatura o homem vive. Precisa de artistas em sua vida. Continuo no pensamento que abordei no post O artista e a obra de arte, o de que o artista vem antes do poeta, e bom poema só atesta seu eu artista, e isto é o artista como poeta. Não só os poetas são artistas. Mas não há poeta que não seja artista. Senão quando confundem as bolas: hoje há cada vez mais gente “poeta” antes de ser artista. O poema mergulha na realidade, contudo numa espécie de libertação. O artista é um ser de certa forma, por alguns tantos momentos, liberto da realidade. Não há realidade em poesia. A realidade é um paradigma da “nova” experiência que de certa forma “transcende”. O texto jornalístico é a “plausível realidade”. Expressão essa de Fernando Pessoa em sua Tabacaria: “E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.” Mas aí ainda estamos na “realidade” que propõe o poema; não é a nossa pura realidade. A lírica é, não discordo de Adorno, um movimento de negação. Sem entender disso melancolia ou qualquer sentimento específico. Acho que o poeta afirma negando embora sempre tente dizer que afirma.

Espero que vocês possam entender isso num já velho e-mail de uma amiga que ontem encontrei enquanto reorganizava minha caixa postal. Ela responde a um poema que lhe enviara. O poema é um plágio de um poema do Fernando Pessoa, mas não um plágio completo. É um bom poema, dos melhores que eu já fiz, entretanto como não encontrava nem um pouco qual a minha expressão como artista, me assegurei nas formas já fáceis. Isso é necessário ao processo de amadurecimento, sei. Hoje, talvez eu ainda não tenha um poema tão bom quanto aquele, mas decerto hoje já tenho poemas; dois ou três, é verdade, mas são poemas meus e não de outro poeta. Duvido que um poeta hoje corresponda a sua expectativa de ser Rimbaud e poder abandonar a poesia aos vinte anos. Ou que uma outra Clarice também exploda como uma orquídea num asfalto. A literatura vive um momento wasteland, terra seca, perdida e incógnita, mas não tanto desolada, na verdade de alguns poucos verdadeiramente desolados — e apenas estes são os artistas que haverá, e deles ainda menos serão poetas, músicos, pintores etc.

E tenho um infinito prazer em viver entre eles. Eu tenho pessoas em volta de mim que são artistas. Os artistas mantêm relação dionisíaca com a realidade, pelo menos em seus momentos de artista. Os loucos foram tão artistas que abandonaram seu artista e tornaram-se loucos. Preocupo-me com isso.

Não conheço poeta mais insano que William Blake, se tivesse um tantinho mais de fé em sua arte seria um louco varrido. Mas Blake é de uma loucura que nos instiga muito. E embora esteja no limiar da loucura é um grande artista e poeta. Assim como poetas bíblicos, Dante, Shakespeare, Drummond, Cabral ou Kaváfis etc. Mas acho que nenhum desses tenham tanto a loucura como matéria — sem que isso seja nem melhor nem pior. Blake tem. Minha amiga fala da realidade, de seu projeto de realidade. Ah! Tirem suas conclusões lendo esta vontade em relação a vida. Vontade de colocá-la como vida e a si como indivíduo. Falei demais!

Ah, só mais uma coisa. Neste fim-de-semana encontrei um poema que um amigo me dedicou sem que nunca me dissesse. Se fosse eu quem tivesse feito, contaria, não para puxar saco ou nada, mas por que me pus naquilo tentando pensar em outro. Sim, entrega-se. Nesse sentido, o que ninguém faz é melhor, por favor. Publica sem alardear, sendo que por outro lado está gravado no blog. Tive vontade de chorar, o poema com a dedicatória para mim. Eu me emocionei assim como este e-mail de minha querida amiga:

 

Olá !!!

 

Seu poema me lembrou uma frase do Goethe “não há nada mais insuportável do que uma sucessão de dias felizes”rsrsr … Acho que São Paulo tem te feito muito melhor do que imaginava … segundo Freud nós só podemos gerar um prazer intenso dos contrastes, um estado permanente de coisas só pode nos trazer um prazer mínimo e ineficaz, talvez seja sempre esse o prazer-limite das pessoas na sala ao lado, e talvez seja por isso que eu bebo, enquanto você lê Sá Carneiro, e bebo cada vez mais insaciavelmente, assim como vc mergulha cada vez mais, talvez, numa melancolia do absurdo, e não importa pra que lado caminhamos, se pra ostentação dos prazeres mundanos, pro prazer da pseudo-liberdade que ostentamos qnd bebemos, pra suposta possibilidade de que somos capazes do mundo num único gole, seco e amaldiçoado, porque qnd a gnt bebe também desafia a si mesmo, se permite cometer tolices, pq entende que a vida não é só feita de ar e idéias, e no fim amanhã ninguém lembrará de mais nada, daqui a cinquenta, cem anos tudo terá mudado, e não fará a menor diferença, se vc foi feliz ou não, se vc se satisfez ou não, tanto no contemplamento intelectual qnt na embriaguez chegamos no mesmo desespero do nada, é qnd bebemos ainda mais, é qnd agimos procurando num movimento esquecer q não há motivo pra mais um copo, que não há nenhum outro motivo além da efemeridade das alterações sinapticas, é qnd vc escreve ainda mais, pq escrever é resgatar um determinado momento, e dar-lhe um sentido maior, e é justamente quando vc se desvincula do que escreve, qnd passa a falar de coisas e impressões que podem remeter a qualquer um, que se torna válido, é a eterna tentativa de algo sólido, que dure, pq um homem no quarto escuro, divagando o fracasso e a inutilidade da vida, vai existir sempre, petrificado num papel, mas o papel pode se extinguir, e não acredito que a arte tenha esse poder de romper com o tempo,. rsrsr mas já viajei demais … mil desculpas…queria dizer que gostei do poema, acho q vc atingiu essa impessoalidade tão necessária, está muito diferente de tudo q já li, mais denso, cético, e tão interessante qnt o poema da Manga, que eu e o * recitamos …rsrsr pois eh, o álcool as vezes nos dá a felicidade de poder recitar um poema teu rsrsr e a vida não tem sentido mesmo não …soh movimento … espero conseguir mesmo ir a SP, eu te aviso se nós conseguirmos ir …

 

 

bjussss pra ti !!!!

 

Tags: Arte · A doce vida

0 responses so far ↓

  • There are no comments yet...Kick things off by filling out the form below.

Leave a Comment