Os dois últimos filmes que assisti no cinema, embora dissimulassem um bom argumento, são bastante frágeis. Em Mais estranho que a ficção coincide de a vida de um homem, o burocrático Harold Crick que trabalha com impostos, ser, sem tirar nem pôr, a narrativa de um romance. Com um bom diretor, bom roteirista etc, poderia ser um bom filme. Até porque, em certo ponto, ficção e realidade se encontram. Sendo que estamos numa ficção. Eu queria ver um filme assim.
Ontem, domingo, assisti ao Perfume - a história de um assassino, depois de se esgotarem os ingressos de Babel, que me foi bem recomendado. Resumindo, conta-se a história de um homem que tem o olfato apuradíssimo (ultrapassando entretanto o verossímil) e, para encontrar o perfume perfeito, tem de matar pessoas. O filme não traz nenhuma justificativa interna para tal, nem nos apresenta a psicologia do sujeito cujo nome eu me esqueci. Ou seja: é uma marionete que tem de matar mulheres bonitas para extrair-lhes a essência do perfume.
Assim, o narrador do filme deixa o perfumista para lá e começa a tentar dar sustos, mostrar escatologias etc. (As cenas bizarras da Paris do século XVXXX são algo interessantes.) E não é um filme curto: mais de duas horas e meias de pura enrolação, ações sem motivação etc. O filme todo é péssimo, exceto o que supomos um erro:
O filme começa à noite com o perfumista condenado, indo para a forca, e o povo todo clamando sua morte. Depois de todo o desenrolar, volta-se à cena em que ele seria levado (no começo ele chegou a estar de frente ao cidadãos) e, entretanto, os guardas perguntam o que ele tem na mão. Era o perfume que ele conseguiu fazer. (Não me perguntem como ele, depois de ter sido torturado, certamente revistado etc. conseguiu manter aquilo consigo.)
O interessante é que daí em diante o filme continua naquele momento e, ao contrário do começo do filme, não é mais noite, sim dia. O povo o espera, ancioso (logo, ainda não o viu), e de repente sai de uma carruagem (!) o assassino vestindo a roupa de um oficial que o foi buscar na cela. Depois disso, com o perfume, ele convence todo mundo de que é um anjo e as pessoas, como que embriagadas pelo perfume, começam a fazer uma completa orgia no centro da cidade etc. Depois, as pessoas acordam, tratam de voltar para suas casas, fingir que nada aconteceu, conseguem um outro culpado e pronto.
O que aconteceu, para mim, foi uma sobreposição de narradores, recurso interessantíssimo. Bem, se o filme valesse à pena eu adoraria assisti-lo mais algumas vezes para poder pensar o assunto. Contudo, eis mais uma boa idéia de que foi feito o bizarro.

3 responses so far ↓
1 Allan // Jan 30, 2007 at 21:28
Pois então vá assistir o filme com o Will Smith (qual é o título no Brasil?)
2 manoela // Feb 3, 2007 at 2:10
q louca essa história da orgia… o povo gosta mesmo é da sacanagem e da matança! pão e circo pra ele! ave!
3 Emmanuel // Feb 5, 2007 at 17:43
Diego,
Não perca tempo vendo o filme novamente, vá direto ao livro “Perfume” de Patrick Süssekind que é a fonte do filme. É um livro excelente (inclusive por muitos dos defeitos que você apontou no filme), mas não se pretende ser um livro relista e verossímil.
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