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Minas, again

February 14th, 2007 · 2 Comments

Estou em Minas desde quinta-feira passada. O avião pousando, eu olho através da janela e vejo aquele verde, única imagem, embora intermitente. E era como se aquilo dissesse algo sobre minha mineirice, que contudo não pode ser posta plena, porque enquanto vivia aqui ou eu queria voltar à minha terra natal, Salvador, ou, já na época dos vestibulares, ir-me embora para São Paulo. E ainda assim continuei nestas terras, vim até Ouro Preto, que desde que me mudei para São Paulo é o bom fragmento que trago de Minas comigo.

E agora retorno à Ouro Preto, depois de ter pensando em voltar a viver por estas terras. Ouro Preto, para mim, não é apenas uma cidade: duas, na verdade: Ouro Preto e Mariana; e, além disso, um certo estado de espírito, que não posso definir enquanto eu não me cansar dele. É como São Paulo, porque eu ando a pensar que quero meu estresse de volta, minha correria enfim. Porque as férias em absurda desocupação, um ócio improdutivél, cansam. E todas as coisas que eu posso definir são uma memória sem desejo, uma nostalgia que, mesmo que em certos momentos eu deseje retomá-lo, sei que não devo, porque não posso, e isso seria contra um curso que se construiu. Retomar, não; o que eu acreditaria, mesmo que me voltassem algumas coisas e estas coisas fossem para ser vividas, em outro tempo, outra vez. Bah! não convém muito falar disso. Mas essa foi das últimas coisas que aprendi na minha ida a Salvador: a de que não devo criar expectativas por causa do passado: acontece que eu mudei e Salvador mudou para mim, embora talvez seja a mesma de uns dez anos atrás. A cidade, à parte o contexto familiar, se tornou inútil a mim, ao menos por agora. E eu pensava que pelo menos ainda houvesse certas coisas que havia há anos, enquanto eu fiquei muito tempo sem ir. Aí, eu, à noite, estava fumando no térreo do prédio do meu avô e já não havia as pessoas que, em algum tempo ido, estavam ali, naquela hora, conversando comigo… e depois éramos expulsos pelo porteiro, porque o barulho incomodava os que trabalhavam no dia seguinte; eu então acabei de fumar meu cigarro, pensei em alguns versos, mas não realizei nada e concluí a minha estupidez em querer que o tempo voltasse. Ah, mas na literatura essa estupidez é uma das grandes virtudes de Proust!…

Não era para ser algo assim reflexivo esse post, mas foi.
E suponho que só se define o que realmente está inacessível, imutável lá em seu túmulo.

Tags: Coisas

2 responses so far ↓

  • 1 Vinicius Melo Justo // Feb 15, 2007 at 22:39

    Nietzsche dizia que só encontramos palavras para o que está morto em nossos corações (referindo-se ao que falamos, não ao que escrevemos). Vou mais além. Encontramos palavras na esperança de reviver as coisas mortas em nosso ser, mas somente conseguimos provar que nós mesmos estamos mortos.

    As lembranças de uma cidade evocam-se como outra disposição: a cidade que existe em nossa mente não é a mesma que visitamos ou vivemos, mas é a única para onde desejamos voltar: ninguém quer voltar para lembranças sólidas, apenas tentamos em vão recuperar o que já se tornou névoa.

  • 2 Manoela // Feb 21, 2007 at 19:05

    caríssimo! depois que saí de curitiba descobri que a saudade é a melhor coisa que o passado pode nos reservar… voltar ao passado, jamais! como você mesmo constatou: nós mudamos e os lugares também, mas transformamos tudo aquilo onde pousamos o olhar, pois nós envelhecemos, entristecemos, amadurecemos e o pensamento é sempre pra frente. Eu não quero mais parar de andar por aí… e o passado me deu esse doce presente que é a saudade… uma saudade sem querer olhar para trás. Quando se olha para trás a lembrança se esvai e o que sobra é a amargura. Hoje entendo meu pai que nunca mais quis pisar em Portugal… qqer hora te conto essa história. Por hora é isso… obrigada pelos olhos bonitos, às vezes os são, outras não :) bjinho

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