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Minha última oração

November 10th, 2006 · No Comments

Fui criado sob a égide de um catolicismo-não-praticante. Adoram dizer que este não é existe, porém nada me parece tão bem definir o pensamento religioso do brasileiro médio.

Minha mãe foi criada por pais católicos, e, no entanto, por seguir uma vida vegetariana/natureba, acabou por se tornar um pouco mística. Desde pequeno ela me ensinava que Deus não era um velho barbudo e ranzinza, e sim uma luz, uma força que sempre queria o melhor para que evoluíssemos. Também costumava dizer que todo lugar onde se falasse de Deus ela estaria. Espiritismo, candomblé, budismo etc.

Apesar de toda essa mistura, o Ideal de Deus católico não era essencialmente pervertido. Porque, enfim, minha mãe via a todas essas teologias com um olhar católico (principalmente no que se refere ao moralismo). Acho que posso, sim, defini-la como uma católica não-praticante.

Assim criado, assim fui até os 18 anos, quando uma tia, bem intencionada, trouxe-me um livro espírita. O que era para me encantar, na verdade me afastou das religiões — o motivo exato não me lembro ao certo, nem vem ao caso.

Passei, pois, a me considerar um quase ateu — e com toda a razão a sê-lo. Pude, assim, entender muito mais sobre mim, porque eu, antes, era condicionado a um moralismo religioso, a um deus que me reduzia a simples criatura, não Criação.

*

Há mais ou menos um ano, quando eu viria a São Paulo para fazer cursinho, combinei por telefone uma pensão em frente ao Anglo. Entretanto, tive problemas. Uma das pensionistas queria roubar-me. Dizia que precisava de dinheiro, perguntou se eu tinha, se eu estava com meu cartão, se sabia a senha etc etc. (leia mais em http://transitoriu.blogspot.com/2005/11/quando-aqui-cheguei.html)

Fui obrigado, portanto, a sair da pensão, e, naturalmente perdido e desolado, fui parar em outra pensão, igualmente vagabunda. (É claro que se eu ligasse para minha mãe que morava em Minas e lhe pedisse, ela me mandaria para um hotel, desesperada. Mas mais do que nunca eu queria apanhar da vida, saber o que ela é, passar por alguma necessidade - a falta talvez nos conduza a uma suficiência.)

Fazia-se ali um amontoado de quartos separados entre si apenas por biombos que sequer fechavam inteiramente um quarto do outro (por cima passavam luz e som). E eu, para piorar, não tinha roupa de cama, toalha, nada, nada! Pedi ao locador, ele me deu uma toalha que esqueceram lá, disse que sairia e que quando voltasse me emprestaria os lençóis e os cobertores.

Ele dissesse que não demoraria, deu mais de meia-noite e ele não voltava!

Como eu tinha aula no dia seguinte, me virei como pude. Deitei-me inteiramente vestido, sobre uma colcha fedida, como se não fosse lavada há um ano. Peguei uma jaqueta, e em uma das mangas pus os pés, na outra os braços, fiquei em posição fetal, imóvel, com frio e sozinho na cidade que me era o Ideal e a esperança.

Embora já não os cresse, rezei uma Ave Maria e um Pai Nosso — como já fôra de costume. Não porque eu esperava uma intervenção divina, mas porque se trataria agora de um mantra do qual eu ainda não havia me despojado completamente. Não me interessava o que se dizia, eu sabia que eu estava buscando a “luz” e a “força” em mim mesmo, eu era ao mesmo tempo a criatura e a Criação.

Depois nunca mais rezei.

Tags: Coisas

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