Perambulagens


Rabisquei enquanto tentava refletir

April 6th, 2007 · 7 Comments

Mantenho a cabeça olhando o teto, as pernas cruzadas o ponto mais elevado do corpo que está mal acomodado em sua cama; e os olhos, como não bastasse estarem cansados de letras minúsculas, ainda sofrem com a luz forte, que não devia atrapalhar a leitura; mas ao mesmo tempo a iluminação é péssima. Mantenho a cabeça em reflexões: sobre assim estar, sobre o livro cuja leitura agora abandonei, sobre as coincidências (todas, inclusive a existência), os pesares e as raras alegrias da vida. Mas nada me deixa contente ou revoltado.

Eu queria não querer nada, ainda que agora esse seja meu último desejo. Preciso compartilhar com vocês que esta caneta rolling ball é excelente: não borra o papel, o traço é fino e não escorrega nem incomoda os dedos como a Bic.

Aí, acabaram-se as coisas que eu tenho para dizer no blog, embora noutros momentos ocorra-me um mundo de idéias. Na verdade . Breve terei novidade pro Perambulagens. E não é só o template novo que já anunciei. Aliás, esse template só sairá com a nova que virá. Quer dizer, novidade só por aqui, porque isso é a última moda entre os blogueiros.

Agora enfio minha cabeça de volta naquele ponto da parede, da porta, da estante… mentira! Estava só esperando para acabar esses resmungos e postar alguma coisa no meu blog tão desatualizado.

Tags: Coisas

7 responses so far ↓

  • 1 Lorena // Apr 6, 2007 at 22:21

    Terminei de ler O Estrangeiro. Esse é um comentário o qual seria melhor fazer pessoalmente ou pelo MSN, mas já que você não está online e eu não tenho absolutamente nada para fazer e estou com vontade de conversar com alguém, deixarei algumas linhas sobre o livro por aqui mesmo.

    Primeiro, fica a dúvida quanto à data exata de sua publicação. Muito provavelmente é início do século XX, mas queria ter certeza. Procurarei na internet assim que terminar de escrever essas linhas. Diego, isso poderia ser um e-mail. Voltando ao livro, não achei nada de mais, só se for mais do mesmo. Não há como não pensar em Kafka ao lê-lo, mesmo antes de chegar à parte do processo; só que me pareceu haver ali muito menos realidade, muito menos literatura do que no autor original. Bastante pobres, por exemplo, suas personagens femininas - submissas, sorridentes, todas a mesma. Claro que existe a possibilidade de isto ser proposital, dado que a ótica do livro é a do protagonista apático, diante do qual as mulheres facilmente poder-se-iam afigurar todas uma mesma repetição tediosa; porém, não creio que este seja o pensamento por trás da representação; o escritor é que é mais ou menos.

    Mas não se pode negar que ele construiu verossimilmente a apatia do protagonista. Quer dizer, não há momento em que a negação e a indiferença não se justifiquem dentro da psicologia construída, e olha que procurei por isto atentamente, por ser este um ponto passível de erro. Há, também, algumas boas descrições e construções de atmosfera, a descrição do rosto dos velhos do asilo por exemplo.

    Em suma, é um livro ok, mas não acho que necessite de mais de duas leituras para uma satisfatória compreensão. Quer dizer, depende do que você procura nele… Pessoalmente, não encontrei grandes nós. E a primeira parte é de longe melhor que a segunda, que é bastante previsível.

    Quanto ao seu post, acho posts sobre posts coisas pouco interessantes. Melhor se você tivesse parado na primeira linha do segundo parágrafo. Mas já estou ficando chata. Adeus.

  • 2 Rômulo // Apr 7, 2007 at 13:47

    Não quero me estender em argumentar a respeito dos méritos do romance, ou contra-argumentar os defeitos indicados pela Lorena, mas: http://www.sobresites.com/alexcastro/artigos/mersault.htm — vai isso como sugestão de linha de pensamento/leitura.

    Uma comparação com Kafka é um indício claro de se ter sucumbido à “armadilha”. A tendência é que Mersault seja aproximado de um herói kafkiano, que seja visto como espectro de um K. qualquer, foragido.

    Não seria, porém, algo muito diferente? Considere um herói kafkiano e o mundo nonsense que o envolve: Mersault parece ser feito da mesma substância que compõe o segundo, não o primeiro. A inversão é perversa. São pontos de vista radicalmente diferentes. É quase um crime dizer que Kafka é o *original* de Camus.

    ‘O Estrangeiro’ é um livro bastante diferente dos demais trabalhos de seu autor, e não sem motivos. Pode ter certeza que absolutamente tudo foi proposital. Camus era um homem inteligente, e o mais provável é que esteja pregando uma peça em todos nós; isso fica claro quando você lê o restante da obra dele. Há algo mais.

  • 3 Rômulo // Apr 7, 2007 at 13:59

    Ah, lembrando que L’Étranger é de 1942.

  • 4 Lorena // Apr 7, 2007 at 17:42

    Bem, como a discussão aqui aborda a obra, não devo me empenhar em defender minha posição de leitora que não caiu no golpe de Mersault - a não ser que este seja ponto cruscial à compreensão dos caminhos do livro.

    Se você se deixa enredar pela personalidade de Mersault, se se apega a ele, ignorando as controvérsias inerentes a seu caráter, a tendência de fato é elevá-lo a herói-mártir no fim do livro. Depois de ter lido o artigo indicado pelo Rômulo, ficou claro ser essa a intenção final de Camus. O problema é que, assim, o livro só funciona quando a leitura se dá de um certo modo “entregue”. Explicando: eu, por exemplo, li o tempo todo com minúcia cética, para não dizer crítica (ou vice-versa), abordando as várias possibilidades de cada passo da ação. Pensei no árabe durante o julgamento, e, apesar de simpatizar um pouco com Mersault (pelo que ele tem de perverso e pouco humano, jamais por reconhecê-lo vítima ou um ser melhor que os outros), concluí que merecia ser punido. Conclusão: no fim do livro ficou a impressão de que a história não funcionou, pois faltou o impacto de uma surpresa, ou o desespero pelo fim trágico do herói. Se não há herói, não há desespero. Tão pouco houve surpresa.

    Não porque eu seja boa leitora, mas porque o bom funcionamento da obra restringe-se a certos vieses de leitura. Que uma obra de ficção possua apenas uma linha plausível de interpretação me parece ser um grave defeito.

    Já a comparação com Kafka é algo mais complicado… Talvez fi-la por questões estilísticas. Não vem mais ao caso aqui.

    Agora que compreendo melhor as intenções de Camus, L’Étranger ganhou um pouco mais de valor. No entanto, continua afigurando-se falho… Numa segunda leitura mais atenta, talvez….

  • 5 Ed // Apr 8, 2007 at 2:16

    Gostei, man. Com o trabalhinho da sua amiga ilustradora, a coisa toda fica ainda melhor.

    Até breve.

  • 6 Murilo // Apr 9, 2007 at 1:22

    Pelo pouco que pude ver, gostei do seu estilo. Espero ver as novidades. Enquanto a mim, em breve teremos algumas.

    abrçs,

    Murilo Coutinho

  • 7 Diego Barreto Ivo // Apr 9, 2007 at 12:33

    Eu estava pensando em fazer um post sobre O Estrangeiro, entretanto preciso relê-lo ao menos uma vez. Porque me ficaram muitas questões em aberto, principalmente toda a psicologia de Mersault.

    Já que o Rômulo pôs o link para o Alex Castro, embora eu o ache (o Castro!) um tanto tacanha em seus escritos, devo comentá-lo. Se Camus tentou pregar uma peça fazendo o leitor acreditar que Marsault não é culpado, quando no fato em si do crime é, eu não sei; para dizer a verdade, minha leitura em nada seguiu esse rumo, e aliás esse não é o centro da obra, como poderíamos dizer que “é” em Dom Casmurro. Espero que um leitor não se baseie exclusivamente nessa questão. E, como já conversei pessoalmente com o Rômulo, ambos consideramos outras questões como fundamentais na obra. Mas falo só por mim, é claro.

    Eu não vejo ali nada que possa ser consideravelmente kafkiano, nem algum intento disso. E
    uma coisa que a Lorena pontuou bem é a questão das “controvérsias inerentes a seu caráter”, que é o que mais me leva a vontade de reler O Estrangeiro.

    Devo confessar que de certa forma tenho bastante da apatia de Mersault, e foi esse um dos motivos de eu ler o livro agora. Mas o que me intrigou é que essa apatia, embora pareça ser verdadeira, parece também mascar um homem “normal”. É como se isso lhe fosse uma libertação do inferno de ter de viver, torna a vida mais doce. Ou: sem sabor; o que para os de “essência” pessimista é uma grande vitória…

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