Mantenho a cabeça olhando o teto, as pernas cruzadas o ponto mais elevado do corpo que está mal acomodado em sua cama; e os olhos, como não bastasse estarem cansados de letras minúsculas, ainda sofrem com a luz forte, que não devia atrapalhar a leitura; mas ao mesmo tempo a iluminação é péssima. Mantenho a cabeça em reflexões: sobre assim estar, sobre o livro cuja leitura agora abandonei, sobre as coincidências (todas, inclusive a existência), os pesares e as raras alegrias da vida. Mas nada me deixa contente ou revoltado.
Aí, acabaram-se as coisas que eu tenho para dizer no blog, embora noutros momentos ocorra-me um mundo de idéias. Na verdade há. Breve terei novidade pro Perambulagens. E não é só o template novo que já anunciei. Aliás, esse template só sairá com a nova que virá. Quer dizer, novidade só por aqui, porque isso é a última moda entre os blogueiros.
Agora enfio minha cabeça de volta naquele ponto da parede, da porta, da estante… mentira! Estava só esperando para acabar esses resmungos e postar alguma coisa no meu blog tão desatualizado.

7 responses so far ↓
1 Lorena // Apr 6, 2007 at 22:21
Terminei de ler O Estrangeiro. Esse é um comentário o qual seria melhor fazer pessoalmente ou pelo MSN, mas já que você não está online e eu não tenho absolutamente nada para fazer e estou com vontade de conversar com alguém, deixarei algumas linhas sobre o livro por aqui mesmo.
Primeiro, fica a dúvida quanto à data exata de sua publicação. Muito provavelmente é início do século XX, mas queria ter certeza. Procurarei na internet assim que terminar de escrever essas linhas. Diego, isso poderia ser um e-mail. Voltando ao livro, não achei nada de mais, só se for mais do mesmo. Não há como não pensar em Kafka ao lê-lo, mesmo antes de chegar à parte do processo; só que me pareceu haver ali muito menos realidade, muito menos literatura do que no autor original. Bastante pobres, por exemplo, suas personagens femininas - submissas, sorridentes, todas a mesma. Claro que existe a possibilidade de isto ser proposital, dado que a ótica do livro é a do protagonista apático, diante do qual as mulheres facilmente poder-se-iam afigurar todas uma mesma repetição tediosa; porém, não creio que este seja o pensamento por trás da representação; o escritor é que é mais ou menos.
Mas não se pode negar que ele construiu verossimilmente a apatia do protagonista. Quer dizer, não há momento em que a negação e a indiferença não se justifiquem dentro da psicologia construída, e olha que procurei por isto atentamente, por ser este um ponto passível de erro. Há, também, algumas boas descrições e construções de atmosfera, a descrição do rosto dos velhos do asilo por exemplo.
Em suma, é um livro ok, mas não acho que necessite de mais de duas leituras para uma satisfatória compreensão. Quer dizer, depende do que você procura nele… Pessoalmente, não encontrei grandes nós. E a primeira parte é de longe melhor que a segunda, que é bastante previsível.
Quanto ao seu post, acho posts sobre posts coisas pouco interessantes. Melhor se você tivesse parado na primeira linha do segundo parágrafo. Mas já estou ficando chata. Adeus.
2 Rômulo // Apr 7, 2007 at 13:47
Não quero me estender em argumentar a respeito dos méritos do romance, ou contra-argumentar os defeitos indicados pela Lorena, mas: http://www.sobresites.com/alexcastro/artigos/mersault.htm — vai isso como sugestão de linha de pensamento/leitura.
Uma comparação com Kafka é um indício claro de se ter sucumbido à “armadilha”. A tendência é que Mersault seja aproximado de um herói kafkiano, que seja visto como espectro de um K. qualquer, foragido.
Não seria, porém, algo muito diferente? Considere um herói kafkiano e o mundo nonsense que o envolve: Mersault parece ser feito da mesma substância que compõe o segundo, não o primeiro. A inversão é perversa. São pontos de vista radicalmente diferentes. É quase um crime dizer que Kafka é o *original* de Camus.
‘O Estrangeiro’ é um livro bastante diferente dos demais trabalhos de seu autor, e não sem motivos. Pode ter certeza que absolutamente tudo foi proposital. Camus era um homem inteligente, e o mais provável é que esteja pregando uma peça em todos nós; isso fica claro quando você lê o restante da obra dele. Há algo mais.
3 Rômulo // Apr 7, 2007 at 13:59
Ah, lembrando que L’Étranger é de 1942.
4 Lorena // Apr 7, 2007 at 17:42
Bem, como a discussão aqui aborda a obra, não devo me empenhar em defender minha posição de leitora que não caiu no golpe de Mersault - a não ser que este seja ponto cruscial à compreensão dos caminhos do livro.
Se você se deixa enredar pela personalidade de Mersault, se se apega a ele, ignorando as controvérsias inerentes a seu caráter, a tendência de fato é elevá-lo a herói-mártir no fim do livro. Depois de ter lido o artigo indicado pelo Rômulo, ficou claro ser essa a intenção final de Camus. O problema é que, assim, o livro só funciona quando a leitura se dá de um certo modo “entregue”. Explicando: eu, por exemplo, li o tempo todo com minúcia cética, para não dizer crítica (ou vice-versa), abordando as várias possibilidades de cada passo da ação. Pensei no árabe durante o julgamento, e, apesar de simpatizar um pouco com Mersault (pelo que ele tem de perverso e pouco humano, jamais por reconhecê-lo vítima ou um ser melhor que os outros), concluí que merecia ser punido. Conclusão: no fim do livro ficou a impressão de que a história não funcionou, pois faltou o impacto de uma surpresa, ou o desespero pelo fim trágico do herói. Se não há herói, não há desespero. Tão pouco houve surpresa.
Não porque eu seja boa leitora, mas porque o bom funcionamento da obra restringe-se a certos vieses de leitura. Que uma obra de ficção possua apenas uma linha plausível de interpretação me parece ser um grave defeito.
Já a comparação com Kafka é algo mais complicado… Talvez fi-la por questões estilísticas. Não vem mais ao caso aqui.
Agora que compreendo melhor as intenções de Camus, L’Étranger ganhou um pouco mais de valor. No entanto, continua afigurando-se falho… Numa segunda leitura mais atenta, talvez….
5 Ed // Apr 8, 2007 at 2:16
Gostei, man. Com o trabalhinho da sua amiga ilustradora, a coisa toda fica ainda melhor.
Até breve.
6 Murilo // Apr 9, 2007 at 1:22
Pelo pouco que pude ver, gostei do seu estilo. Espero ver as novidades. Enquanto a mim, em breve teremos algumas.
abrçs,
Murilo Coutinho
7 Diego Barreto Ivo // Apr 9, 2007 at 12:33
Eu estava pensando em fazer um post sobre O Estrangeiro, entretanto preciso relê-lo ao menos uma vez. Porque me ficaram muitas questões em aberto, principalmente toda a psicologia de Mersault.
Já que o Rômulo pôs o link para o Alex Castro, embora eu o ache (o Castro!) um tanto tacanha em seus escritos, devo comentá-lo. Se Camus tentou pregar uma peça fazendo o leitor acreditar que Marsault não é culpado, quando no fato em si do crime é, eu não sei; para dizer a verdade, minha leitura em nada seguiu esse rumo, e aliás esse não é o centro da obra, como poderíamos dizer que “é” em Dom Casmurro. Espero que um leitor não se baseie exclusivamente nessa questão. E, como já conversei pessoalmente com o Rômulo, ambos consideramos outras questões como fundamentais na obra. Mas falo só por mim, é claro.
Eu não vejo ali nada que possa ser consideravelmente kafkiano, nem algum intento disso. E
uma coisa que a Lorena pontuou bem é a questão das “controvérsias inerentes a seu caráter”, que é o que mais me leva a vontade de reler O Estrangeiro.
Devo confessar que de certa forma tenho bastante da apatia de Mersault, e foi esse um dos motivos de eu ler o livro agora. Mas o que me intrigou é que essa apatia, embora pareça ser verdadeira, parece também mascar um homem “normal”. É como se isso lhe fosse uma libertação do inferno de ter de viver, torna a vida mais doce. Ou: sem sabor; o que para os de “essência” pessimista é uma grande vitória…
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