Perambulagens


Relendo meus já velhos poemas

May 17th, 2007 · 6 Comments

Ontem à noite e agora de manhã reli meu primeiro projeto de livro concluído, Os Paraísos Paralelos. Desde quando o tinha “terminado” (o motivo foi um concurso literário), já o olhava com certo desprezo, dizia aos amigos que era tedioso, e nunca foi por modéstia - vocês sabem que não sou disso. Tratava-o desse modo simplesmente porque era ruim. Havia alguns problemas óbvios, a pressa de terminá-lo mostrou-se patente, reuni nos Paraísos muitos exercícios de poesia.

No entanto, nem tudo se percebeu no momento. O que me levava a achá-lo tedioso? O que me causava repulsa em relação a ele? O Emmanuel Santiago, meu amigo poeta e quase impecável leitor (não posso deixar de dizer que tenho muita sorte com meus leitores, on-line ou não) fez uma exaustiva leitura crítica. Apontou bem os seus pontos altos, baixos, medíocres etc.

De toda a crítica que ele me fez, naquele momento não podia perceber muita coisa. Primeiro, porque eu tinha em mente numa estética totalmente diferente (mais abaixo falarei mais), depois porque muitos dos poemas não foram engavetados, então eu supunha ter escrito em poema o que eu sentia. Quase nada passava de projeção do meu momento. Os poemas agora não mais resistem a uma leitura minha.

Como disse no post anterior, há entretanto alguns poemas aos quais o Emmanuel já me tinha chamado a atenção. “Deus ex-machina, deus”, “Meu catálogo matinal de contrários”, “Cineasta ou espelhos seqüenciais”, e momentos de outros. Esses poemas também são os meus preferidos, exceção ao Catálogo, que é um poema muito Álvaro de Campos e pouco Diego Barreto Ivo, mas um de meus melhores. E não que isso não tenha sido comentado pelo Emmanuel.

Nesses poemas reconheço ainda algumas limitações, que procurarei refletir. Durante muito tempo minha poesia se fechava numa redoma de hermetismo. Cada vez mais eu tentava fazer imagens complexas e profundas, entretanto a profundidade psicológica ficava um pouco de lado e exibia-se meu “dom” para as coisas inteligíveis.

Ontem, veio aqui em casa um outro amigo, o Vinícius. Conversamos muito de Literatura, e por sorte passamos longe de técnicas. Falamos de mundo, de nós mesmos. Oras, o poeta só consegue fazer seus poemas quando se conhece. E essa é das partes a mais difícil. E uma coisa também muito difícil é reconhecer sua língua; além de muita psicologia, eu sou a Língua Portuguesa. Então não faz o menor sentido que eu busque uma solução um tanto eliotiana a um poema enquanto 1) eu não sou T.S., nem pretendo sê-lo; 2) sua língua não é o português, o que se pensa em seu poema é pensado em inglês e 3) ele por enquanto é melhor poeta que o Diego.

O Paulo Osrevni, do Para ler sem pensar (só ele sabe por que o nome de seu blog eu escrevi errado), tem um ótimo texto sobre línguas, Cada língua em seu lugar. (A propósito, o Antonio Cicero tem um post relacionado: A filosofia e a língua alemã.) Neste parágrafo do post do Paulo ele explica muito bem o problema com o qual nos deparamos:

O português é a língua perfeita para transmitir as impressões e sensações de um mundo que está dado e nos cerca, queiramos ou não. É a língua da conversa solta, da prosa que parece verso e do verso que parece prosa. Os franceses gostam de se considerar o povo da conversa vazia, o bavardage, mas eles se expressam por convenções e fórmulas que só fazem enrijecer o discurso. Nós nos expressamos em ondas e marolas. Já os documentos oficiais, talhados para o francês, soam tolos e pretensiosos em nosso idioma, e a fala marcial do inglês nos empobrece.

Na minha conversa de ontem, o Vinícius defendeu que não há mais espaço para hermetismos. Não é querer ser um mero moralista, a Literatura ter de fazer tal ou tal coisa etc. Qualquer boa poesia está conectada ao seu tempo, a poesia reconhece e cria o mundo. Do que adianta haver um excelente sonetista se ele for puramente parnasiano? Além do mais, é bastante raro que um papagaio escamoteie a poesia de um verdadeiro poeta.

Não fui tão fechado a regras, mas não há como eu não dizer que não fui um papagaio de muita coisa. Mas também não há poeta que antes não tenha sido papagaio. Em Rimbaud, vemos nos primeiros poemas a papagaice e como ele vai se desprendendo de todas as marras até se tornar um barco bêbado. Mas o tempo não é mais de prodígios: o poeta, hoje mais do que nunca é para daqui a alguns anos, isso reforça que ele seja um resistente em relação ao mundo. “Suas asas de gigante impedem-no de andar”, como cantou Baudelaire em O Albatroz.

Em Deus ex-machina, deus reconheço a minha língua e conheço a mim mesmo, menos em alguns momentos. Será que é por que eu conheço ali a língua brasileira ou é por que eu me reconheço que há a língua brasileira? O poema está prosaico, artificialmente despojado, tranqüilo, mas em seu amago terrível, incomoda.

Os poetas que não escrevem para incomodar deveriam se tornar publicitários.

Tags: Coisas

6 responses so far ↓

  • 1 Vinícius // May 17, 2007 at 22:07

    Ótimo termo, o “papagaio”. No nosso gostoso português do Brasil, todos sabemos que um papagaio só pode fazer mesmo é um monte de papagaiada. Tentar fugir da repetição é pensar com clareza; conseguir fugir de verdade é luz-própria.

  • 2 Rômulo // May 19, 2007 at 17:48

    Também há limites para esse pensamento cada-em-língua-em-seu-lugar, né. Mimetizar formas e processos de línguas estrangeiras noutra língua pode ter resultados interessantes. As línguas que eu conheço — que de fato são pouquíssimas, mas com literatura transbordante: inglês e português — têm flexibilidade sintática e morfológica suficiente para que isso seja feito; e isso é de fato feito, sabe-se lá desde quando. Me refiro à literatura.

    Claro que o sujeito tem de ser bom para enxertar línguas em línguas sem ser pomposo, artificial, ridículo, ou o que for.

    Fernando Pessoa, por exemplo, (dizia que) pensava em inglês. De fato, Álvaro de Campos se parece muito com Walt Whitman, e vê-se muito a presença da língua inglesa nos textos dele. Da mesma forma, vê-se muito latim em Ricardo Reis. Isso diminui a obra?

    Talvez a diferença está no fato de que um poeta como Fernando Pessoa possui uma intimidade tão absurdamente alta com sua língua, uma liberdade tão intensa, que ele é capaz de fazer com ela o que bem entender. Sendo também íntimo de outra língua, pode até insertir estrangeirismos na sua própria. Joyce disse certa vez que fazia o que queria com o inglês.

  • 3 Vinícius // May 19, 2007 at 18:13

    Concordo com você, Rômulo, mas ainda acrescento um problema: conhecer mais do que profundamente a língua vernácula faz-se necessário sempre que se tente aprimorar a própria linguagem utilizando-se de outros idiomas. Para tal conhecimento, não se começa do fim: ninguém faz um logaritmo antes de fazer aritmética básica. Há fases nesta possibilidade de enxertar idiomas em seu próprio. Talvez a melhor de todas as fases seja a inconsciente; onde as línguas conhecidas já estão presentes no conhecimento da vernácula sem artificialismos planejados. O exemplo do Joyce é forte demais, mas ele conhecia a fundo também os idiomas que trançou em Ulysses e FW. Com o português, por exemplo, do qual tinha poucos conhecimentos (suspeito disto), fez pouco além de algumas brincadeirinhas morfológicas.

  • 4 Rafael Reinehr // May 22, 2007 at 20:39

    Fiquei intrigado com a questão da discussão acerca desta construção e reconstrução poética. Talvez não consiga me fazer claro, mas vou tentar:

    É comum, na prosa, buscar-se o aperfeiçoamento da escrita, através de múltiplas correções, reescritas, rasuras e novas escritas. Na poesia, acredito que isso seja menos comum. Não se tem o hábito de, usualmente, discutir poesia e pedir críticas a amigos ou conhecidos e, depois, quem sabe, reescrevê-las.

    Interessante, pensei eu, porque o ato de dialogar para a construção de uma prosa parece perfeitamente natural, ao mesmo tempo que, no meu pequeno mundo, sempre imaginei qualquer participação de fora como uma intrusão no mundo da poesia, que requereria, daquele momento em diante, uma espécie de “co-autoria” do poema.

    Mas acho que estou delirando, e se digo que estou com febre é porque ela vem a cavalo.

    Volto noutro dia em que estiver melhor e consiga concatenar uma palavra atrás da outra, gerando ao menos uma réstia de sentido.

  • 5 Vinícius // May 25, 2007 at 19:29

    Não lhe réstia muito sentido.

  • 6 Katadvabs // Nov 1, 2008 at 20:34

    Just went through your pages. Nuzzle my mushy manner A joke for you peoples! What happens when a ghost haunts a theater? The actors get stage fright.

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