Caminho um mundo, uma poesia, sem possibilidade de vitória. E acaso é possível, hoje, um poema que conte glórias?
Segundo Walter Benjamin, e isto ele dizia já na primeira metade do Século XX, a experiência humana decaiu. Ao contrário de outros tempos, não temos nada a nos dizer.
“Calma não há nada a conseguir.
Sem vitória, nem derrota,
Sem troféu pra exibir.
Deixa o teu riso aparecer,
Que a vida é bem mais simples
Do que geralmente a gente faz”
(Me beija, Lobão)
Vai-se a uma guerra, que é de trincheiras (quando não menos humana, exclusivamente de poderes bélicos), e volta-se mudo, desolado.
Talvez tenhamos perdido o espiritual em favor do material, de um instrumentalismo. A vida é prática, perdeu a poesia, a filosofia… a arte, enfim — e conseqüentemente o relacionamento humano. Em A Metamorfose, uma das obras máximas do Conto, Kafka o demonstrou com um narrador seco e um conteúdo patético, tenso. O “monstruoso inseto” em que Gregor Samsa se metamorfoseou define a nossa condição, somos facilmente um objeto que de repente é visto como algo descartável pela própria família. Embora a moralidade tente provar o contrário com politicamente-corretices.
Não busco, contudo, uma grande vitória, um hino homérico — nem posso! O mundo é triste, e a arte deve concebê-lo. Reconheço a minha condição.
“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil”
(Poema em linha reta, Fernando Pessoa)
E não digo isso para que tudo se revolucione, não! Hoje nós não podemos esperar mais nada, ou nem queremos. Nosso mundo romântico de “Ideal e esperança” se diluiu em um vácuo de democracias e alto nível de evolução humana.
“Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas”
(Tabacaria, Fernando Pessoa)
O que mais poderá representar e entender o que há de mais humano senão a arte?

3 responses so far ↓
1 Manoela // Nov 18, 2006 at 14:41
meu amigo, sabe qual talvez seja a fonte da grande desgraça? essa mania humana de infalibilidade… sim! somos falíveis! somos frágeis! somos efêmeros diante da idade do universo… pq essa mania de grandeza? eu, hoje em dia, não quero nada além de poder ler aquilo que me dá prazer, desenhar, pintar, escrever algumas porcarias e só. E tomar minha cerveja com pessoas interessantes, que me façam sentir amor e ódeio heheheeh. Com relação ao seu comentário (tenho respondido depois de um tempo, talvez por isso você não se lembre deles): sim, a Torre de Tv é uma espécie de parque e o horizonte no Planalto Central é algo maravilhoso mesmo, assim como o céu, que é maior que em qualquer outro lugar do Brasil. Podemos sim um dia conversar sobre arte e cultura, embora eu sinta que isso tudo já deixou de ser arte e cultura há tempos! Tudo se confunde hoje em dia e as pessoas chama de arte uma coisa que mistura os conceitos de cultura, estética, artesanato, mito/rito e filosofia da arte… ninguém mais fala as coisas direito… é o tal pastiche. Beijos!
2 Allan // Nov 18, 2006 at 18:56
E o que é a arte?
3 Lorena // Nov 19, 2006 at 20:29
Discordo, até que a esterilidade artística do nosso microtempo se mostre definitiva, dessa história de “a experiência humana decaiu”. Benjamin que me perdoe, e você que o parafraseia, mas o termo decaiu é não só equivocado como triste, pois evoca uma profunda ignorância quanto à riqueza da nossa época, do nosso tempo, que já não é o de Benjamin, mas um outro que ainda não descobrimos.
O problema é esse: ainda não descobrimos como comunicar nossa experiência. Ainda não sabemos, nós, rebentos dessa nova era sem nome, como compreender a miríade de coisas nascendo explodindo enfim coisando a cada segundo (para imitar a prosa de Rosa, em homenagem ao Vinícius).
São Paulo é lindo, é rico. O nosso século (se é que ainda é próprio separar os tempos em séculos - acho que hoje há uma revolução no caos a cada dez anos) é deslumbrantemente fecundo. Se você voltar a Ouro Preto precisarei te dar uma porrada, pois estará a trocar o complexo de sua situação atual pelo confortável que você encontra em seu porto, mas que, perdoe-me novamente, não duraria ao sempre. Antes de ir para a Europa descobrir suas verdades você arrumaria um filho, um emprego e uma mulher para lavar trouxas e trouxas de roupas todos os dias. Pense nisso. Poesia só se faz a partir do complexo. A era em que vivemos é complexa e carente de verdades, há espaço para se fazerem todas as revoluções: há poesia! E atrás de nossos olhos cresce nossa experiência…
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