“Um poema é um objeto autotélico, isto é, ele tem o seu fim em si próprio. Quando o julgamos bom ou ruim, estamos a considerá-lo independentemente do fato de que, além de ser um poema, ele tenha qualquer utilidade. Uma letra de música, por outro lado, é heterotélica, isto é, ela não tem o seu fim em si própria. Para que a julguemos boa, é necessário e suficiente que contribua para que a obra musical de que faz parte seja boa. Em outras palavras, se uma letra de música servir para fazer uma boa canção, ela é boa, ainda que seja ilegível. E a letra pode ser ilegível porque, para se estruturar, para adquirir determinado colorido, para ter os sons ou as palavras certas enfatizadas, ela dependa da melodia, da harmonia, do ritmo, do tom da música à qual se encontra associada. Assim, uma boa letra de música não é necessariamente um bom poema.”
(Antonio Cicero, in: http://www2.uol.com.br/antoniocicero/storm.html)
Não conhecia o Cicero. Ontem, sábado, ele deu uma boa entrevista à Folha de S. Paulo sobre a nova onda de reacionarismo que ocorre no País, a coisa que mais me valeu à pena ler no jornal. Há algum tempo eu já li alguns poemas seus, nenhum chamou-me à atenção, mas o certo é que ele é coerente ao falar de poesia.
Além do mais, ele é uma das poucas pessoas que entendem que um poema só pode transmitir poesia desde que se faça arte pela arte, no seu sentido menos masturbatório, por favor. E que poesia é, sim, forma, embora isso não a limite a um empilhamento maquinal de técnicas. Se não me engano ele é filosoficamente contrário ao Nietzsche (li em algum lugar que ele dizia que não gostava dele porque pop só música), mas supostamente concorda com o “dionisíaco” que haveria nos poemas.

1 response so far ↓
1 Vinícius // Mar 5, 2007 at 15:13
Não preciso de tantos torneios de linguagem. Uma letra de música não é um poema simplesmente porque é música. A letra e a melodia são parte da música assim como as letras e os versos são parte dos poemas. Não se deve misturar: as óperas de Mozart e Wagner, por exemplo, são grandiosas obras musicais; não precisam ser mais que isso. Assim como “Ode Marítima” é um grande poema sem precisar ser musicado (embora possa ser, mas aí, simplesmente, torna-se música).
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