Me interesso especialmente pelo que é excessivo, por aquele homem cujo critério, não obstante demonstre bom gosto, não precisa se emburrecer com ecletismos (no sentido de mais pífio que a palavra consegue exprimir); ou , menos ainda, necessite seguir à risca o já lhe vem como bom (ou mau), sem saber como questionar, ao menos que para apontar que não é exatamente como o dizem, ou que é (mas qual verdade é unânime senão a vulgar?)
O homem grande busca seu valor no que lhe é apresentado sem, porém, utilizar-se de extremismos toscos – o que, aliás, é bem diferente de ser radical.
Etimologicamente, “radical” se remete a “raiz”; esta, afinal, o ponto aonde me proponho a chegar em qualquer observação (como jovem ainda, reconheço meus fracassos). O homem que tem critério não acha conveniente ater-se ao que é superficial (por mais que a “casca” pareça-lhe genial).
(A propósito, é por isso que dou razão àquele que diz: “contra os fãs de Fernando Pessoa, a favor de Fernando Pessoa”. Devem-se esmiuçar os fenômenos até seu prelúdio.)
Um extremista, isso é facilmente perceptível, acaba por se encerrar em uma absoluta verdade, as certezas, ao passo que o radical, apesar de tomar uma atitude aparentemente extrema, tem o bom senso para discernir as coisas. Busca-se sempre o que move cada coisa, como introduzi acima. No bom sentido da palavra, o radical medita o mundo, e assim costuma chegar a suas verdades, e costuma ainda assim meditá-las. Ao menos esse é um processo que suponho.
(Não me parece o suficiente tratar, neste momento, de extremistas religiosos; porém diga-se que um católico radical consegue distinguir a poesia da verdade na Bíblia, além de saber que essa é uma verdade SUA.)
Não se pode haver gênio sem radicalismo (estético ou do próprio homem); William Blake que o diga com sua máxima “o caminho do excesso leva ao Palácio da Sabedoria” — embora certamente trate-se um aparente extremismo reduzir a poesia d’Os Provérbios do Inferno ao que tento defender aqui. Longe disso, por Deus.
No entanto, é inegável que essa frase ilustra com certa precisão a questão da raiz do gênio. O homem só pode sê-lo quando ultrapassa não só a média de seu tempo, mas também acrescenta aos gênios anteriores. Por isso esse excesso blakeano é que é a minha fé do artístico. E, nele, sim: eu consigo separar o que é a poesia do que é a verdade.
Georg Lukács e Walter Benjamin são minhas referências em crítica literária e pensamento acadêmico (assim como em qualquer texto não-literário), justamente por fugirem do texto protocolar dos acadêmicos em geral: ambos conseguem escrever com raiva ou amor, o que é uma fuga do pastiche de parnasiano com o qual nossos acadêmicos parecem desenvolver seus textos: “objetivismo em conteúdo, objetivismo em forma”!
De modo algum me oponho ao que é objetivo, porém um bom texto não pode ser apenas descritivo, principalmente quando falamos em crítica literária: posto que a literatura seja feita do humano, de suas emoções etc., um texto que o lê não deveria igualmente demonstrar esse caráter?
E isso se refere a qualquer leitura de arte. Essa lei do “objetivismo acadêmico” deveria se limitar a ensaios acadêmicos acerca de outro texto academicamente objetivo.
Certa vez, teria dito Hyumans que “não se possui talento verdadeiro se não se ama apaixonadamente e não se deixa odiar com a mesma intensidade”, referindo-se à literatura e, penso eu, também à crítica literária. E isso me vale como filosofia.
Em homens medíocres nunca encontrei nada senão modéstia (falsa, como todas) e extremismos (que levam à arrogância), que geralmente os conduzem à burrice. É esse o oposto que nos leva, por exemplo, ao ler Dostoievski ou Kafka, a um pensamento desconcertante.
Não há pensamento filosófico que não seja assim, ao menos que ele passe a nos confortar com grande força – mas aí cairíamos no relativismo de sua falta tornar-se desconcertante…).
(Sim, grandes poetas, como Drummond, eram modestos – mas isso era política de sua parte, portanto hipocrisia.)
Filosofia, poesia, e quaisquer artes seguem o caminho do excesso, se lhes há arte: Baudelaire, T.S. Eliot, Van Gogh, Lobão etc. – só para citar o que me convém agora.
Assim como qualquer outro grande pensador o fez, neste blog buscarei meus excessos. Neste momento em que o niilismo já não me abarca, neste momento que é o mais propício para eu construir meu catálogo de verdades. Eu sou radical, embora ainda não tenha chegado propriamente às raízes a que me proponho.
E, para buscá-las, vejo que só posso fazê-lo buscando as verdades plurais, e ainda verdades minhas.
Ao longo deste blog, publicarei algumas; no entanto, este espaço não é a matriz da razão. Antes de tudo, de procura. A minha verdade é uma procura que será eterna. Enquanto ela me for conveniente. Tenho todo o direito à contradição.
Ela me explica muito mais do que as certezas.

3 responses so far ↓
1 Vinícius // Oct 5, 2006 at 12:13
A rigor, concordo com o radicalismo, embora para mim seja interessante pensar em radicalismo pensando em radicais matemáticos: onde a radiciação é um movimento de redução numérica aplicado por meio de um radical. Portanto, na literatura, e talvez em qualquer arte, precisamos de um radicalismo que nos faça reduzir(em termos quantitativos, nunca qualitativos) e condensar o significado de tudo; pasteurizar este radicalismo pensando em abarcar mais possibilidades não é apenas equivocado como também ingênuo.
2 Allan // Oct 6, 2006 at 3:11
Já fui radical. Ou melhor: já acreditei ser radical. Hoje sou sereno. E tenho cosnciência de ser sereno. E isso é bom.
3 Manoela // Oct 12, 2006 at 7:59
eu oscilo entre radicalismos e branduras… te falei já q o radicalismo é uma postura moderna? bjo!
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