Vejam a tradução que achei para As Flores do Mal de Baudelaire:
As flores do mal
A alma tomada por tolices e erros, nãos
e pecados, que nos moldam os corpos,
alimentamos nossos queridos remorsos
como sem abrigos que estimam sua sujidãotemos pecados teimosos e emendas balofas;
a verdade, se a dizemos, custa uma fortuna
que, ufanos, desbaratamos até à impecúnia
crendo com vis lágrimas apagar falhas de gosto.(…)
Mas no infame zoo de nossos vícios, entre
os muitos linces chacais e panteras
macacos serpentes abutres e quimeras
além de monstros que silvam entre dentesUm há, de todos o mais feio maléfico e imundo;
é verdade que não berra nem tem pruridos
mas faria da terra um monte de ruídos,
se pudesse, e num bocejo tragaria o mundo;É o Tédio! Sente-se-lhe nos olhos um senão,
sonha com torturas enquanto chupa rebuçados.
Tu que me lês já conheces esse monstro delicado,
meu impostor nato, minha cópia e meu irmão!
Não sei quem é o tradutor, o site não dizia. Aí me parece que esse tradutor fez de propósito, para realmente ser engraçado, porque um leitor, por menos que fosse atento, perceberia que o verso final é o famosíssimo “Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão” — desde que conhecesse as flores doentias. Além de ser uma tradução simples a desse verso, o poema ficou um tanto cacete. Vejam-se as mesmas partes traduzidas pelo Ivan Junqueira, que não é nenhum grande tradutor:
Ao Leitor
A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso corpo e o espírito viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada,
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.(…)
Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vício ancestrais,Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;É o Tédio! - O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu o conheces, leitor, ao monstro delicado
- Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão.
Se o leitor aí lê em francês, veja o poema no original. Há no Brasil um site que disponibiliza para acesso todas As Flores do Mal, traduzidas. (Clique no título para entrar)

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