Hoje na faculdade um amigo disse que Drummond não é esse poeta que todos dizem ser, até por que ele repetiu muitas coisas que o Baudelaire já havia resolvido, como por exemplo a subjetividade do eu.
Como se a literatura não fosse o poder (liberdade) e sim o dever (moral).
O problema é que no Brasil (ridículo isto) temos de voltar àquele clichê d’O Retrato de Dorian Gray: “Não há livros morais e livros imorais. Há livros bem escritos e livros mal escritos. Eis tudo.”
Na madrugada de ontem, morreu por falência múltipla dos órgãos, o grande poeta brasileiro Gerardo Mello Mourão, muito pouco conhecido no país, embora, por exemplo, Ezra Pound tenha chegado a dizer que Gerardo conseguiu fazer, em seu Os Peãs, o que o poeta inglês tentou fazer em toda a sua obra (a epopéia da América). De todas as notícias que saíram até agora, não vi nenhuma que falasse do poeta, senão do lugar comum de ele ter sido integralista. Acho que os jornalistas nunca ouviram falar dele, porque TODAS as matérias diziam a mesma coisa. Parece-me que eles tiveram como fonte em comum apenas a Wikipedia.
Sobre Mourão, disse Carlos Drummond de Andrade:
É um poeta que não se pode medir a palmo e conseguiu o máximo de expressão usando recursos artísticos que nenhum outro empregou em nossa língua
Para os leitores bem-aventurados, não há melhor coisa neste momento a se fazer do que (re)ler sua obra, que está disponibilizada quase integralmente no Jornal de Poesia, gratuitamente. Amanhã quero escrever um artigo em sua homenagem. E, agora que ele morreu, a academia talvez comece a estudá-lo. Acho que é o Sartre quem diz isso (ironicamente): só se deve homenagear uma pessoa depois de morta.
A memória, cheia de desejos, caçoa destes dias brutos; a vida se projeta despojada num pranto embotado, no entanto.
Desabrochará? Quando poderei, despetalando as pálpebras da vida uma a uma, revelar-me o esperado ou surpreender-me? Ah, as flores do vazio, então.
Se o sol não ecoasse o que cometi talvez ainda achasse feias as rainhas esposas dos caranguejos, cascas horrorosas, patas perigosas.Tempo cru, portanto.
Úmida contudo, esta terra não esturrica, permanece terna; terra onde tudo existe intermitente; e tantas as coisas que estão a cada instante. Os dias judiam de minha doce memória só devaneios, Deus.
Também o céu está blue. Repouso aqui sem guarda-sol; a vida é depressa. Às vezes penso que levo o cronômetro em banho-maria. Deveria definitivamente dar-me ao Paraíso, ou Inferno.
O cinema não é produzido para cineastas, tampouco a literatura para literatos; de modo que ler num blogue as reverberações do autor sobre Shopenhauer é uma chance única de acesso a um tipo de opinião crua, sem gatekeepers editoriais. A crítica sem critério é valiosíssima. É como uma pesquisa de opinião voluntária.
Vejam a tradução que achei para As Flores do Mal de Baudelaire:
As flores do mal
A alma tomada por tolices e erros, nãos
e pecados, que nos moldam os corpos,
alimentamos nossos queridos remorsos
como sem abrigos que estimam sua sujidão
temos pecados teimosos e emendas balofas;
a verdade, se a dizemos, custa uma fortuna
que, ufanos, desbaratamos até à impecúnia
crendo com vis lágrimas apagar falhas de gosto.
(…)
Mas no infame zoo de nossos vícios, entre
os muitos linces chacais e panteras
macacos serpentes abutres e quimeras
além de monstros que silvam entre dentes
Um há, de todos o mais feio maléfico e imundo;
é verdade que não berra nem tem pruridos
mas faria da terra um monte de ruídos,
se pudesse, e num bocejo tragaria o mundo;
É o Tédio! Sente-se-lhe nos olhos um senão,
sonha com torturas enquanto chupa rebuçados.
Tu que me lês já conheces esse monstro delicado,
meu impostor nato, minha cópia e meu irmão!
Não sei quem é o tradutor, o site não dizia. Aí me parece que esse tradutor fez de propósito, para realmente ser engraçado, porque um leitor, por menos que fosse atento, perceberia que o verso final é o famosíssimo “Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão” — desde que conhecesse as flores doentias. Além de ser uma tradução simples a desse verso, o poema ficou um tanto cacete. Vejam-se as mesmas partes traduzidas pelo Ivan Junqueira, que não é nenhum grande tradutor:
Ao Leitor
A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso corpo e o espírito viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.
Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada,
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.
(…)
Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vício ancestrais,
Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;
É o Tédio! - O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu o conheces, leitor, ao monstro delicado
- Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão.
Se o leitor aí lê em francês, veja o poema no original. Há no Brasil um site que disponibiliza para acesso todas As Flores do Mal, traduzidas. (Clique no título para entrar)
“Um poema é um objeto autotélico, isto é, ele tem o seu fim em si próprio. Quando o julgamos bom ou ruim, estamos a considerá-lo independentemente do fato de que, além de ser um poema, ele tenha qualquer utilidade. Uma letra de música, por outro lado, é heterotélica, isto é, ela não tem o seu fim em si própria. Para que a julguemos boa, é necessário e suficiente que contribua para que a obra musical de que faz parte seja boa. Em outras palavras, se uma letra de música servir para fazer uma boa canção, ela é boa, ainda que seja ilegível. E a letra pode ser ilegível porque, para se estruturar, para adquirir determinado colorido, para ter os sons ou as palavras certas enfatizadas, ela dependa da melodia, da harmonia, do ritmo, do tom da música à qual se encontra associada. Assim, uma boa letra de música não é necessariamente um bom poema.”
Não conhecia o Cicero. Ontem, sábado, ele deu uma boa entrevista à Folha de S. Paulo sobre a nova onda de reacionarismo que ocorre no País, a coisa que mais me valeu à pena ler no jornal. Há algum tempo eu já li alguns poemas seus, nenhum chamou-me à atenção, mas o certo é que ele é coerente ao falar de poesia.
Além do mais, ele é uma das poucas pessoas que entendem que um poema só pode transmitir poesia desde que se faça arte pela arte, no seu sentido menos masturbatório, por favor. E que poesia é, sim, forma, embora isso não a limite a um empilhamento maquinal de técnicas. Se não me engano ele é filosoficamente contrário ao Nietzsche (li em algum lugar que ele dizia que não gostava dele porque pop só música), mas supostamente concorda com o “dionisíaco” que haveria nos poemas.
Hoje às 19h30, em João Pessoa, será exibido um vídeo da Manoela Afonso, do qual participei com voz e recorte dos poemas, o Tudo Bem, filme “experimental”, que será exibido no evento Vídeo nas Trincheiras. Se alguém residir em JP, clique na imagem abaixo para ver o convite ampliado!
Refugio-me em pensamentos
sórdidos, e a aurora, se expondo
sem pudor e distante, no abandono
da noite, evidencia Desalento,
postos sua astúcia maligna
de desiludir e seu escárnio
indecente ao pressentir a continuidade
do curso; entre um cigarro
e outro, fumaça e neblina, frio
e a brasa à ponta, que ilumina
e se reduz – o Sol
orgulhoso vem tomando (banhando)
para si as formas arquitetônicas
naturais e as assim construídas,
mas estanca no relevo de mim
mais próximo, em plano; e reflete,
e desaba,
inundando os arredores, relevando
a mim um círculo
boréu, feito perdoar-se a triste condição,
e basta-me a Noite para viver.
* * *
O martírio de sórdidos
desejos: este céu pesado
em seu tom de anil que quase
já surge, em que pássaros
matutinos, num exílio, dançam
o ritual da cópula com o dia
e me escorraçam, pois
a Luz contaminei
com as Trevas,
mal sabendo os vingantes
que este de lua alumiado em náusea
eterna é um Prometeu
cuja sina é pairar no Vácuo
Inicial do mundo, devido
à tola blasfêmia de Supor,
embora não o cogitasse
(estava bêbado, respirava
sufocando-se); agora irrevogável,
pretensão tornou-se punição,
e dói-me o fígado pelo que não
refletirei.
Nestas férias descobri, lendo-o, que Shakespeare atingiu o Humano na Literatura. Depois de Hamlet, passei o resto do dia como quem leva um soco no estômago, discreto e profundo, e cheio de um Terror que me fez de certa forma perder alguma noção de mim — naquela coisa do Freud, meu espaço e meu tempo ficavam confusos! E mesmo no dia seguinte houve resquícios desse “outspacing”.
Em Proust todas os trechos seriam ideais para demonstrar sua genialidade; em Shakespeare nem tudo funciona instantaneamente, mas vai se adensando para determinado momento da narrativa, como o “to be or not to be that is the question”. Em busca do tempo perdido entretanto é um livro que nos impõe uma leitura lenta, porque cada detalhe é impactante, numa espécie de “tragicidade objetiva”, como se diz acerca de Flaubert.
Depois continuo a falar de minha leitura que tange, toca e incomoda Shakespeare.
Estou em Minas desde quinta-feira passada. O avião pousando, eu olho através da janela e vejo aquele verde, única imagem, embora intermitente. E era como se aquilo dissesse algo sobre minha mineirice, que contudo não pode ser posta plena, porque enquanto vivia aqui ou eu queria voltar à minha terra natal, Salvador, ou, já na época dos vestibulares, ir-me embora para São Paulo. E ainda assim continuei nestas terras, vim até Ouro Preto, que desde que me mudei para São Paulo é o bom fragmento que trago de Minas comigo.
E agora retorno à Ouro Preto, depois de ter pensando em voltar a viver por estas terras. Ouro Preto, para mim, não é apenas uma cidade: duas, na verdade: Ouro Preto e Mariana; e, além disso, um certo estado de espírito, que não posso definir enquanto eu não me cansar dele. É como São Paulo, porque eu ando a pensar que quero meu estresse de volta, minha correria enfim. Porque as férias em absurda desocupação, um ócio improdutivél, cansam. E todas as coisas que eu posso definir são uma memória sem desejo, uma nostalgia que, mesmo que em certos momentos eu deseje retomá-lo, sei que não devo, porque não posso, e isso seria contra um curso que se construiu. Retomar, não; o que eu acreditaria, mesmo que me voltassem algumas coisas e estas coisas fossem para ser vividas, em outro tempo, outra vez. Bah! não convém muito falar disso. Mas essa foi das últimas coisas que aprendi na minha ida a Salvador: a de que não devo criar expectativas por causa do passado: acontece que eu mudei e Salvador mudou para mim, embora talvez seja a mesma de uns dez anos atrás. A cidade, à parte o contexto familiar, se tornou inútil a mim, ao menos por agora. E eu pensava que pelo menos ainda houvesse certas coisas que havia há anos, enquanto eu fiquei muito tempo sem ir. Aí, eu, à noite, estava fumando no térreo do prédio do meu avô e já não havia as pessoas que, em algum tempo ido, estavam ali, naquela hora, conversando comigo… e depois éramos expulsos pelo porteiro, porque o barulho incomodava os que trabalhavam no dia seguinte; eu então acabei de fumar meu cigarro, pensei em alguns versos, mas não realizei nada e concluí a minha estupidez em querer que o tempo voltasse. Ah, mas na literatura essa estupidez é uma das grandes virtudes de Proust!…
Não era para ser algo assim reflexivo esse post, mas foi.
E suponho que só se define o que realmente está inacessível, imutável lá em seu túmulo.
Escuto os passos de um soldado
saídos do contato forte e difícil
de seus coturnos sobre a calçada
como se exalasse o impasse de uma batalha
em breve, e isso o tornasse inseguro
e soturno, lá dentro, e exausto
no seu olhar rígido e altivo, exprimindo
contra o chão o luto de ter de continuar.
Ele seguia decidido em resolver a intriga
a que sempre se arranjavam motivos para
nunca aniquilar — E, num ímpeto
de coincidência, o vento frio avalia
o peso e a angústia daqueles rumos tortuosos
para mim e dão ao transeunte a liberdade
de não optar pela perfeição do Amor
que se jurou sob a égide da felicidade.
O vento, então, rasga tal sina de sobrevivência
imediata, com o adorável pretexto
de lhe impôr um ar fresco e límpido
que lhe açoita os cabelos e até propõe um riso
súbito, que se acata, apesar dos subterfúgios
cotidianos de que os tempos iniciais ainda voltarão…
“Oh, não perguntes do que se trata;
continuamos a viver, apenas isso!
Seguimos na possibilidade mesma da nostalgia
realizar-se presentemente, porém verificamos
que a vida é inócua,
embora Deus nos houvesse ofertado tudo o que pedíamos.
Mas nós já nos esquecemos das expectativas,
suspendendo-as. E, a fúria, não há como explicá-la;
deixa por favor soar o vento.”
E, num lance repentino, transubstancia-se a cena,
minha perspectiva gira e eu surjo!
infalível e majestoso. E, apesar
dos meus olhos que derrubam gigantes,
tamanha sua dinâmica implacável de tormento!,
como se olhassem Medusa e se consolidassem
estátuas pálidas a engolir seco o medo!
(não, nenhum mais há de ser o David de Miguel Ângelo),
demonstro minha compaixão! descendo a mão ágil
que estava à altura de qualquer órbita inimiga!,
e a ofereço benéfica à minha criatura! qual um deus
em minha astuta façanha de apacientar e desiludir.
Numa chuva torrencial que há de levar a arrogância
lavando o espírito ínfimo em tão grande infortúnio,
pervertendo a sorte de meus terríveis dias,
eu me reencontro comigo e prossigo fatigado,
a saber de que os passos ainda me corroerão, através
da linha reta.
Os dois últimos filmes que assisti no cinema, embora dissimulassem um bom argumento, são bastante frágeis. Em Mais estranho que a ficção coincide de a vida de um homem, o burocrático Harold Crick que trabalha com impostos, ser, sem tirar nem pôr, a narrativa de um romance. Com um bom diretor, bom roteirista etc, poderia ser um bom filme. Até porque, em certo ponto, ficção e realidade se encontram. Sendo que estamos numa ficção. Eu queria ver um filme assim.
Ontem, domingo, assisti ao Perfume - a história de um assassino, depois de se esgotarem os ingressos de Babel, que me foi bem recomendado. Resumindo, conta-se a história de um homem que tem o olfato apuradíssimo (ultrapassando entretanto o verossímil) e, para encontrar o perfume perfeito, tem de matar pessoas. O filme não traz nenhuma justificativa interna para tal, nem nos apresenta a psicologia do sujeito cujo nome eu me esqueci. Ou seja: é uma marionete que tem de matar mulheres bonitas para extrair-lhes a essência do perfume.
Assim, o narrador do filme deixa o perfumista para lá e começa a tentar dar sustos, mostrar escatologias etc. (As cenas bizarras da Paris do século XVXXX são algo interessantes.) E não é um filme curto: mais de duas horas e meias de pura enrolação, ações sem motivação etc. O filme todo é péssimo, exceto o que supomos um erro:
O filme começa à noite com o perfumista condenado, indo para a forca, e o povo todo clamando sua morte. Depois de todo o desenrolar, volta-se à cena em que ele seria levado (no começo ele chegou a estar de frente ao cidadãos) e, entretanto, os guardas perguntam o que ele tem na mão. Era o perfume que ele conseguiu fazer. (Não me perguntem como ele, depois de ter sido torturado, certamente revistado etc. conseguiu manter aquilo consigo.)
O interessante é que daí em diante o filme continua naquele momento e, ao contrário do começo do filme, não é mais noite, sim dia. O povo o espera, ancioso (logo, ainda não o viu), e de repente sai de uma carruagem (!) o assassino vestindo a roupa de um oficial que o foi buscar na cela. Depois disso, com o perfume, ele convence todo mundo de que é um anjo e as pessoas, como que embriagadas pelo perfume, começam a fazer uma completa orgia no centro da cidade etc. Depois, as pessoas acordam, tratam de voltar para suas casas, fingir que nada aconteceu, conseguem um outro culpado e pronto.
O que aconteceu, para mim, foi uma sobreposição de narradores, recurso interessantíssimo. Bem, se o filme valesse à pena eu adoraria assisti-lo mais algumas vezes para poder pensar o assunto. Contudo, eis mais uma boa idéia de que foi feito o bizarro.
Retomo minha vida on-line depois de algum tempo afastado de computadores e civilização. Foram dias desde antes do reveillon até alguns dias atrás na Barra do Gil, ilha próxima a Salvador, em que eu tomava cerveja dirariamente, mas não ficava bêbado, e brincava com as crianças feito um “tio de alguma colônia de férias”. Não que tenha sido ruim, aliás divirto-me com isso. Só que fracassei em meu projeto de escrever uma novela. Ao menos fiz um esboço. E tive um insight para um longo poema, que possa corresponder às minhas pretensões literárias. Digo por enquanto que é como uma espécie de Divina Comédia pós-moderna, sobretudo a forma de se surgirem imagens e as perambulagens de Dante.
E terminei Os Paraísos Paralelos. Em um e-mail expliquei bem a minha sensação de terminá-los:
Acabei os meus Paraísos Paralelos pelo simples fato de um concurso literário; sinceramente, o livro ficou detestável, salvaria dele uma meia dúzia de versos, mas dei-lhes cabo também por outro motivo, sobretudo este (…) qualidade literária: concluí-los deu-me o alívio de quem queima seus poemas.
Quem desejar lê-los, peça-me por e-mail.
Vou ficando por aqui porque estou sem vontade de escrever.
Vou-me embora, daqui a pouco, para a Barra do Gil, ilha próxima a Salvador para tirar minhas férias de tudo. Computador, faculdade, cinza paulistando, demonia ouropretano etc.
Não há muito o que comemorar, o blog ficou às moscas, realmente abandonado pelo menos duas vezes.
O fato é que aos 18 de dezembro de 2005 eu postava o primeiro post, ainda no Blogger. Veja-o:
“Perambulagens é um blog que vagueia por aí, por coisas da literatura, música e artes em geral, por coisas dos nossos dias, coisas minhas, coisas das coisas. Por aí…” (veja aqui)
Eu postei algumas músicas que gravei no computador, alguns erros poéticos, alguns fracassos e alguns bons poemas que ninguém notou.
Abortar-me do aspecto rude e turvo da metrópole (embora muito elegante).
Não, este poema não tratará de maldizer a vida;
ao contrário, matérias do poeta (mal-entendidos) abortem-se!
Que se diluem, neste instante, a apatia, a melancolia e o tédio de outros
[versos.
Pois o suficiente… arre!, basta apenas sentar-se neste balanço.
De repente a paisagem rural é acariciada por um chuvisco.
Querer deixá-lo cair sobre mim, ainda que fume um cigarro.
Ah… que me importa?… Neste balanço… o cinza esquece de se iniciar.
(E não haja necessidade, enfim, de mandar tudo mais para o diabo!)
Mas chove mais forte (as nuvens se encontram sobre mim,
trovejam) – e já me é impossível o doce vício…
(A não ser que eu retorne à chácara aonde acabo de chegar em férias.)
Que eu me despoje! que se molhem óculos, roupas, sapatos e celular!
Aí eu me balanço mais forte. Rio e grito.
Na medida em que o céu e o chão
são tomados pela mais do que pesada torrente. Balançar a si e ao mundo
como se não mais houvesse si e mundo.
Escorrego à rústica terra, quase charco. (Lodo aos urbanos.)
[Soerguer-me-ei?
Ah, deixem-se! que o chão, o nada, o céu,
tudo se fundirá numa simples e inigualável redenção,
como se o grego e o internacional deus desconhecido
enfim me tocasse e me desse uma bênção, infinitamente latente.
Um poeta que escreve bons poemas mas não consegue fazer com que seus poemas sejam ele mesmo conseguirá ser um bom poeta?
Sim, acho que tenho alguns bons poemas, porém eu não me sinto profundamente em nenhum deles. Faço poemas com outras vozes, sobretudo as de Ezra Pound, T.S. Eliot, Fernando Pessoa e alguma coisa de Baudelaire.
Poemas que poderiam ser escritos por esses poetas em algum momento de juventude. Mas não poemas que sejam eu mesmo, Diego Barreto Ivo.
Porque eu não consigo saber quem eu sou, sequer consigo pôr essa dúvida em meus poemas.
Escrevo versos bonitos em formas de outros poemas canônicos.
E, assim, poderão os meus ser bons poemas?
Não, suponho que não. O que eu faço decerto são anomalias, pastiches de grandes poemas.