Este site nao existe mais, ok?


Do Falsário da Irreconhecível pintura

February 12th, 2007 · 17 Comments

Há um arbitrário implícito
nestas ruas estúpidas:
o de que devemos prosseguir;

Dissolver-me nessa vereda
é extasiar-se sem alento:
me aproximo e te repulso;

Feito união com distinção:
como um pintor que, deslizando
tinta a esmo, não cedesse a um impulso.

Há, sim, Temor, já que caminhamos.
Continuamos, como se me propusesse
expectativas, e no entanto há morte:

és iminente!; Deus, inacessível, turvo…
E há tantos sentidos cogitáveis para
o depois, inclusive apenas acaso.

Mas o hipotético amortece o pensamento,
amorfa-o contudo; vejo-te, na lacuna, rua
nua, e o desvario se misturando à pintura.

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A expectativa de um homem só

February 8th, 2007 · 3 Comments

Escuto os passos de um soldado
saídos do contato forte e difícil
de seus coturnos sobre a calçada
como se exalasse o impasse de uma batalha
em breve, e isso o tornasse inseguro
e soturno, lá dentro, e exausto
no seu olhar rígido e altivo, exprimindo
contra o chão o luto de ter de continuar.

Ele seguia decidido em resolver a intriga
a que sempre se arranjavam motivos para
nunca aniquilar — E, num ímpeto
de coincidência, o vento frio avalia
o peso e a angústia daqueles rumos tortuosos
para mim e dão ao transeunte a liberdade
de não optar pela perfeição do Amor
que se jurou sob a égide da felicidade.
O vento, então, rasga tal sina de sobrevivência
imediata, com o adorável pretexto
de lhe impôr um ar fresco e límpido
que lhe açoita os cabelos e até propõe um riso
súbito, que se acata, apesar dos subterfúgios
cotidianos de que os tempos iniciais ainda voltarão…

“Oh, não perguntes do que se trata;
continuamos a viver, apenas isso!
Seguimos na possibilidade mesma da nostalgia
realizar-se presentemente, porém verificamos
que a vida é inócua,
embora Deus nos houvesse ofertado tudo o que pedíamos.
Mas nós já nos esquecemos das expectativas,
suspendendo-as. E, a fúria, não há como explicá-la;
deixa por favor soar o vento.”

E, num lance repentino, transubstancia-se a cena,
minha perspectiva gira e eu surjo!
infalível e majestoso. E, apesar
dos meus olhos que derrubam gigantes,
tamanha sua dinâmica implacável de tormento!,
como se olhassem Medusa e se consolidassem
estátuas pálidas a engolir seco o medo!
(não, nenhum mais há de ser o David de Miguel Ângelo),
demonstro minha compaixão! descendo a mão ágil
que estava à altura de qualquer órbita inimiga!,
e a ofereço benéfica à minha criatura! qual um deus
em minha astuta façanha de apacientar e desiludir.

Numa chuva torrencial que há de levar a arrogância
lavando o espírito ínfimo em tão grande infortúnio,
pervertendo a sorte de meus terríveis dias,
eu me reencontro comigo e prossigo fatigado,
a saber de que os passos ainda me corroerão, através
da linha reta.

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A “solução” para os novos escritores…

February 5th, 2007 · 1 Comment

http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2189

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Boas idéias, filmes ruins

January 29th, 2007 · 3 Comments

Os dois últimos filmes que assisti no cinema, embora dissimulassem um bom argumento, são bastante frágeis. Em Mais estranho que a ficção coincide de a vida de um homem, o burocrático Harold Crick que trabalha com impostos, ser, sem tirar nem pôr, a narrativa de um romance. Com um bom diretor, bom roteirista etc, poderia ser um bom filme. Até porque, em certo ponto, ficção e realidade se encontram. Sendo que estamos numa ficção. Eu queria ver um filme assim.

Ontem, domingo, assisti ao Perfume - a história de um assassino, depois de se esgotarem os ingressos de Babel, que me foi bem recomendado. Resumindo, conta-se a história de um homem que tem o olfato apuradíssimo (ultrapassando entretanto o verossímil) e, para encontrar o perfume perfeito, tem de matar pessoas. O filme não traz nenhuma justificativa interna para tal, nem nos apresenta a psicologia do sujeito cujo nome eu me esqueci. Ou seja: é uma marionete que tem de matar mulheres bonitas para extrair-lhes a essência do perfume.

Assim, o narrador do filme deixa o perfumista para lá e começa a tentar dar sustos, mostrar escatologias etc. (As cenas bizarras da Paris do século XVXXX são algo interessantes.) E não é um filme curto: mais de duas horas e meias de pura enrolação, ações sem motivação etc. O filme todo é péssimo, exceto o que supomos um erro:

O filme começa à noite com o perfumista condenado, indo para a forca, e o povo todo clamando sua morte. Depois de todo o desenrolar, volta-se à cena em que ele seria levado (no começo ele chegou a estar de frente ao cidadãos) e, entretanto, os guardas perguntam o que ele tem na mão. Era o perfume que ele conseguiu fazer. (Não me perguntem como ele, depois de ter sido torturado, certamente revistado etc. conseguiu manter aquilo consigo.)

O interessante é que daí em diante o filme continua naquele momento e, ao contrário do começo do filme, não é mais noite, sim dia. O povo o espera, ancioso (logo, ainda não o viu), e de repente sai de uma carruagem (!) o assassino vestindo a roupa de um oficial que o foi buscar na cela. Depois disso, com o perfume, ele convence todo mundo de que é um anjo e as pessoas, como que embriagadas pelo perfume, começam a fazer uma completa orgia no centro da cidade etc. Depois, as pessoas acordam, tratam de voltar para suas casas, fingir que nada aconteceu, conseguem um outro culpado e pronto.

O que aconteceu, para mim, foi uma sobreposição de narradores, recurso interessantíssimo. Bem, se o filme valesse à pena eu adoraria assisti-lo mais algumas vezes para poder pensar o assunto. Contudo, eis mais uma boa idéia de que foi feito o bizarro.

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A volta

January 18th, 2007 · 2 Comments

Retomo minha vida on-line depois de algum tempo afastado de computadores e civilização. Foram dias desde antes do reveillon até alguns dias atrás na Barra do Gil, ilha próxima a Salvador, em que eu tomava cerveja dirariamente, mas não ficava bêbado, e brincava com as crianças feito um “tio de alguma colônia de férias”. Não que tenha sido ruim, aliás divirto-me com isso. Só que fracassei em meu projeto de escrever uma novela. Ao menos fiz um esboço. E tive um insight para um longo poema, que possa corresponder às minhas pretensões literárias. Digo por enquanto que é como uma espécie de Divina Comédia pós-moderna, sobretudo a forma de se surgirem imagens e as perambulagens de Dante.

E terminei Os Paraísos Paralelos. Em um e-mail expliquei bem a minha sensação de terminá-los:

Acabei os meus Paraísos Paralelos pelo simples fato de um concurso literário; sinceramente, o livro ficou detestável, salvaria dele uma meia dúzia de versos, mas dei-lhes cabo também por outro motivo, sobretudo este (…) qualidade literária: concluí-los deu-me o alívio de quem queima seus poemas.

Quem desejar lê-los, peça-me por e-mail.

Vou ficando por aqui porque estou sem vontade de escrever.

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Agora, as férias offline

December 29th, 2006 · No Comments

Vou-me embora, daqui a pouco, para a Barra do Gil, ilha próxima a Salvador para tirar minhas férias de tudo. Computador, faculdade, cinza paulistando, demonia ouropretano etc.

Caso alguém queira falar comigo: (71) 9951-7701

Bom ano novo para vocês!

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Um ano de Perambulagens

December 18th, 2006 · 3 Comments

Não há muito o que comemorar, o blog ficou às moscas, realmente abandonado pelo menos duas vezes.

O fato é que aos 18 de dezembro de 2005 eu postava o primeiro post, ainda no Blogger. Veja-o:

“Perambulagens é um blog que vagueia por aí, por coisas da literatura, música e artes em geral, por coisas dos nossos dias, coisas minhas, coisas das coisas. Por aí…” (veja aqui)

Eu postei algumas músicas que gravei no computador, alguns erros poéticos, alguns fracassos e alguns bons poemas que ninguém notou.

O blog não leva a nenhum lugar, mas eu gosto.

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Libertação e aceitação

December 18th, 2006 · No Comments

Abortar-me do aspecto rude e turvo da metrópole (embora muito elegante).
Não, este poema não tratará de maldizer a vida;
ao contrário, matérias do poeta (mal-entendidos) abortem-se!
Que se diluem, neste instante, a apatia, a melancolia e o tédio de outros
                                                                                                     [versos.
Pois o suficiente… arre!, basta apenas sentar-se neste balanço.

De repente a paisagem rural é acariciada por um chuvisco.
Querer deixá-lo cair sobre mim, ainda que fume um cigarro.
Ah… que me importa?… Neste balanço… o cinza esquece de se iniciar.

(E não haja necessidade, enfim, de mandar tudo mais para o diabo!)

Mas chove mais forte (as nuvens se encontram sobre mim,
trovejam) – e já me é impossível o doce vício…
(A não ser que eu retorne à chácara aonde acabo de chegar em férias.)
Que eu me despoje! que se molhem óculos, roupas, sapatos e celular!

Aí eu me balanço mais forte. Rio e grito.
Na medida em que o céu e o chão
são tomados pela mais do que pesada torrente. Balançar a si e ao mundo
como se não mais houvesse si e mundo.

Escorrego à rústica terra, quase charco. (Lodo aos urbanos.)
                                                                            [Soerguer-me-ei?
Ah, deixem-se! que o chão, o nada, o céu,
tudo se fundirá numa simples e inigualável redenção,
como se o grego e o internacional deus desconhecido
enfim me tocasse e me desse uma bênção, infinitamente latente.

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O bom poeta…

December 8th, 2006 · 6 Comments

Um poeta que escreve bons poemas mas não consegue fazer com que seus poemas sejam ele mesmo conseguirá ser um bom poeta?

Sim, acho que tenho alguns bons poemas, porém eu não me sinto profundamente em nenhum deles. Faço poemas com outras vozes, sobretudo as de Ezra Pound, T.S. Eliot, Fernando Pessoa e alguma coisa de Baudelaire.

Poemas que poderiam ser escritos por esses poetas em algum momento de juventude. Mas não poemas que sejam eu mesmo, Diego Barreto Ivo.

Porque eu não consigo saber quem eu sou, sequer consigo pôr essa dúvida em meus poemas.

Escrevo versos bonitos em formas de outros poemas canônicos.

E, assim, poderão os meus ser bons poemas?

Não, suponho que não. O que eu faço decerto são anomalias, pastiches de grandes poemas.

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Da estética

December 5th, 2006 · No Comments

Vivenciamos processos radicais de estetização que compreendem desde os nossos posicionamentos práticos e orientações morais até a construção de nossas categorias do conhecimento. O estético está presente tanto nos níveis da realidade material, condicionada pelas tecnologias e pelas mídias, quanto no da realidade imaterial, isto é, na ordem da consciência e da percepção do mundo. Ele se manifesta num nível superficial, embelezando a realidade e recobrindo-a com a nobreza de uma aura estética que se estende do meio ambiente urbano aos produtos duvidosos despejados no mercado consumidor; dos corpos modelados e estilizados às regras de etiqueta; das tecnologias genéticas, que prometem a ficção da longevidade, a realidade virtual em que podemos viver todas as possibilidades, a uma distância segura.

(Alkimin, M. Ficções nossas de cada dia. In: http://acd.ufrj.br/~confrariadovento/numero9/ensaio03.htm)

O artigo, na verdade, trata das ficções que vivemos hoje, o que é abarcável pelo real, virtual e ficcional. Acabei de lê-lo, preciso de uma releitura. Estou reflexivo. Leiam, vale à pena.

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Rave na Casa das Rosas

December 3rd, 2006 · 2 Comments

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Poesia, neste instante

November 24th, 2006 · 2 Comments

Lendo sobre Baudelaire descobri que eu estou sendo como seus contemporâneos que o viam como promíscuo, insano e mau poeta. Reclamo a arte do meu tempo, mas sequer quero procurar pela arte do meu tempo, sequer realmente busco entendê-lo. (embora não tenha entendido os poetas anteriores.)

É como se eu, esperando um novo Rimbaud, estivesse porém preso a conceitos retrógrados, como se o novo gênio da poesia realmente fosse um novo T.S. Eliot em minha visão atual. Eu não tenho sido radical, infelizmente. Traí-me.

É, pois, hora de ir em busca da poesia.

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Alquimia

November 22nd, 2006 · 2 Comments

Homens sem rosto emulam-se,
transmutam máscara em barro,
reinventando um terrível regaço
onde quedam-se fadas de absinto.
Cortinas abertas: gentlemen concretos

Trata-se do primeiro poema que fiz e ainda hoje considero-o um poema. De julho de 2006, talvez.

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Sobre a volta a Ouro Preto…

November 21st, 2006 · 3 Comments

Talvez seja justo que eu deixe a minha posição sobre o post Vou-me embora para Ouro Preto?.

Eu já havia me decidido há alguns dias, nada postei. Veja-se o comentário maravilhoso que a Lorena, amiga paraense daqui de São Paulo, deixou no blog:

Lorena diz:

  • Discordo, até que a esterilidade artística do nosso microtempo se mostre definitiva, dessa história de “a experiência humana decaiu”. Benjamin que me perdoe, e você que o parafraseia, mas o termo decaiu é não só equivocado como triste, pois evoca uma profunda ignorância quanto à riqueza da nossa época, do nosso tempo, que já não é o de Benjamin, mas um outro que ainda não descobrimos.
    O problema é esse: ainda não descobrimos como comunicar nossa experiência. Ainda não sabemos, nós, rebentos dessa nova era sem nome, como compreender a miríade de coisas nascendo explodindo enfim coisando a cada segundo (para imitar a prosa de Rosa, em homenagem ao Vinícius).
    São Paulo é lindo, é rico. O nosso século (se é que ainda é próprio separar os tempos em séculos - acho que hoje há uma revolução no caos a cada dez anos) é deslumbrantemente fecundo. Se você voltar a Ouro Preto precisarei te dar uma porrada, pois estará a trocar o complexo de sua situação atual pelo confortável que você encontra em seu porto, mas que, perdoe-me novamente, não duraria ao sempre. Antes de ir para a Europa descobrir suas verdades você arrumaria um filho, um emprego e uma mulher para lavar trouxas e trouxas de roupas todos os dias. Pense nisso. Poesia só se faz a partir do complexo. A era em que vivemos é complexa e carente de verdades, há espaço para se fazerem todas as revoluções: há poesia! E atrás de nossos olhos cresce nossa experiência…
  • A minha decisão é um tanto quanto óbvia, decidi que não irei me decidir.

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    A vida em flashes, um momento lírico no YouTube

    November 20th, 2006 · No Comments

    Acabei de ler no Cronópios um belo texto publicado pelo antropólogo Marko Monteiro sobre um vídeo que ficou famoso no You Tube, o Noah takes a photo of himself every day for 6 years. Não me parece, no entanto, que seja só mais um vídeo; diz Monteiro: “por exemplo, o contraste entre a continuidade (dos olhos, do rosto, da boca) e o fluxo estonteante de locações, iluminação, posições que transcorre em segundo plano. A sucessão rápida das fotografias cria, de fato, uma imagem de um “fluxo da vida”: somos levados a sonhar o desenrolar de um pedaço da vida de alguém; buscamos por sinais de envelhecimento, ficamos maravilhados com as mudanças incessantes de estilos de cabelo, ficamos surpresos com a invariabilidade das olheiras”.

    O Noah takes a photo of himself every day for 6 years é um dos momentos mais líricos do que se produziu na Internet. O som de fundo melancólico, o semblante sempre igual, sempre sério, gera a idéia de que a vida passa em flashes. Mas isso não quer dizer nada…

    Trata-se de uma obra em andamento, porque se no começo mesmo o autor não parecia ter muita idéia do que fazer, a não ser tirar uma foto sua, depois os espaços ao fundo vão girando em torno de Noah, criando a tensão de um espaço construido a partir da realidade.

    Esse fluxo da vida, em flashes, sem ter aonde ir, parece representar artisticamente essa nossa condição de homem contemporâneo. O vídeo não tem começo, meio ou fim, apenas uma ordem cronólogica.

    Um vídeo desses é melhor do que toda uma Bienal.

    Acesse o vídeo aqui: youtube.com/watch?v=6B26asyGKDo.

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    Ao horizonte

    November 18th, 2006 · 3 Comments

    Caminho um mundo, uma poesia, sem possibilidade de vitória. E acaso é possível, hoje, um poema que conte glórias?

    Segundo Walter Benjamin, e isto ele dizia já na primeira metade do Século XX, a experiência humana decaiu. Ao contrário de outros tempos, não temos nada a nos dizer.

    “Calma não há nada a conseguir.
    Sem vitória, nem derrota,
    Sem troféu pra exibir.
    Deixa o teu riso aparecer,
    Que a vida é bem mais simples
    Do que geralmente a gente faz”
    (Me beija, Lobão)

    Vai-se a uma guerra, que é de trincheiras (quando não menos humana, exclusivamente de poderes bélicos), e volta-se mudo, desolado.

    Talvez tenhamos perdido o espiritual em favor do material, de um instrumentalismo. A vida é prática, perdeu a poesia, a filosofia… a arte, enfim — e conseqüentemente o relacionamento humano. Em A Metamorfose, uma das obras máximas do Conto, Kafka o demonstrou com um narrador seco e um conteúdo patético, tenso. O “monstruoso inseto” em que Gregor Samsa se metamorfoseou define a nossa condição, somos facilmente um objeto que de repente é visto como algo descartável pela própria família. Embora a moralidade tente provar o contrário com politicamente-corretices.

    Não busco, contudo, uma grande vitória, um hino homérico — nem posso! O mundo é triste, e a arte deve concebê-lo. Reconheço a minha condição.

    “Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
    Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
    E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil”
    (Poema em linha reta, Fernando Pessoa)

    E não digo isso para que tudo se revolucione, não! Hoje nós não podemos esperar mais nada, ou nem queremos. Nosso mundo romântico de “Ideal e esperança” se diluiu em um vácuo de democracias e alto nível de evolução humana.

    “Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas”
    (Tabacaria, Fernando Pessoa)

    O que mais poderá representar e entender o que há de mais humano senão a arte?

    → 3 CommentsTags: Insights

    No bar Sereia

    November 14th, 2006 · 1 Comment

    “Não me peguem no braço!
    Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
    Já disse que sou sozinho!”
    (Pessoa, Lisbon Revisited)

    Desentranhar-se da sombra.
    E poder fazer tudo em segredo.
    Ou não querer fazer nada,
    Decidir-se pelo ócio.

    Caminhar por ruas ermas.
    E de repente alcançar
    Um boteco vagabundo.
    Porém ir-se embora sem

    Ao menos ter-lhe adentrado.
    Só porque lá não te queres.
    Então imaginas “Se
    Bebesses, neste instante, o tédio

    Dissipar-se-ia, serias
    Discretamente feliz.
    Por que não te suicidaste?
    Quem morre cedo é que os deuses

    Amam, querem para si.
    Abandonar estas sombras
    esquisitas. Retomar
    o caminho já esquecido.

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    Relativismo

    November 13th, 2006 · 5 Comments

    O relativista se acha tão relativo que seus ‘dependeres’ já não podem se exprimir com a mesma força de quem não o é, porque ele se tornou um crente na busca de provar que tudo é relativo — e isso não raro se torna uma convicção, o que, engraçado, não é nada relativo. E não prova nada. Oras, nós precisamos de verdades!

    O relativista tem a certeza da incerteza, o que lhe define como estática.

    É, enfim, uma incoerência da parte do relativista tomar o relativismo como um conceito absoluto.

    → 5 CommentsTags: Insights

    Vou-me embora para Ouro Preto?

    November 11th, 2006 · 1 Comment

    Foda-se o intelectualismo de São Paulo. Abri mão de uma vida pela o ideal e esperança de São Paulo. Ainda gosto daqui, apaixonadamente. Mas São Paulo me extirpa, parece cada vez me roubar a vida.

    A faculdade de Letras da USP é um desalento, principalmente fora das salas. Há uma necessidade medonha de se ser intelectual, como se isso fosse a única coisa que nos move. Não, eu preciso de Ouro Preto, de meus amigos, meus melhores amigos que estão todos em Ouro Preto.

    Acho que só lá conheci o Amor, e aqui sou amordaçado por tantas coisas… moralismo de família, inadequação à lógica que me impõem, a eterna lembrança de um exílio. Acho que não quero mais nada do que consegui ser eu, sem necessidade de fingir, de tentar me fazer algo esperado.

    O que tenho são uns cem livros, algumas roupas que não raro estão sujas por preguiça de lavar, uns 30 cds e mais algum punhadinho de coisas. Basta encaixotar tudo.

    Sim, me amordaçarão mais. Voltar para um lugar de onde se veio?

    Deixem-me em paz, todos! Eu perco dois anos de faculdade, mas ao menos recupero uma das coisas mais preciosas que percebi.

    Só haverá vestibular em julho do ano que vem, não é difícil passar na UFOP. Sei lá, pego minhas coisas, mudo-me para lá, faço um curso de línguas, retomo minha vida social, essencial. A faculdade não durará o testo de minha vida, obviamente. Aí depois eu posso ir para a Europa, conhecer o mundo, apanhar da vida, encontrar minhas verdades.

    Que aqui está sendo uma mentira sem proveito.

    Numa “noite de porre imenso”, no Rio de Janeiro, Mario de Andrade decidiu-se por voltar a São Paulo. “Vou-me embora pra São Paulo”. Eu quero o contrário. Ouro Preto, os diabos de Ouro Preto.

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    Minha última oração

    November 10th, 2006 · No Comments

    Fui criado sob a égide de um catolicismo-não-praticante. Adoram dizer que este não é existe, porém nada me parece tão bem definir o pensamento religioso do brasileiro médio.

    Minha mãe foi criada por pais católicos, e, no entanto, por seguir uma vida vegetariana/natureba, acabou por se tornar um pouco mística. Desde pequeno ela me ensinava que Deus não era um velho barbudo e ranzinza, e sim uma luz, uma força que sempre queria o melhor para que evoluíssemos. Também costumava dizer que todo lugar onde se falasse de Deus ela estaria. Espiritismo, candomblé, budismo etc.

    Apesar de toda essa mistura, o Ideal de Deus católico não era essencialmente pervertido. Porque, enfim, minha mãe via a todas essas teologias com um olhar católico (principalmente no que se refere ao moralismo). Acho que posso, sim, defini-la como uma católica não-praticante.

    Assim criado, assim fui até os 18 anos, quando uma tia, bem intencionada, trouxe-me um livro espírita. O que era para me encantar, na verdade me afastou das religiões — o motivo exato não me lembro ao certo, nem vem ao caso.

    Passei, pois, a me considerar um quase ateu — e com toda a razão a sê-lo. Pude, assim, entender muito mais sobre mim, porque eu, antes, era condicionado a um moralismo religioso, a um deus que me reduzia a simples criatura, não Criação.

    *

    Há mais ou menos um ano, quando eu viria a São Paulo para fazer cursinho, combinei por telefone uma pensão em frente ao Anglo. Entretanto, tive problemas. Uma das pensionistas queria roubar-me. Dizia que precisava de dinheiro, perguntou se eu tinha, se eu estava com meu cartão, se sabia a senha etc etc. (leia mais em http://transitoriu.blogspot.com/2005/11/quando-aqui-cheguei.html)

    Fui obrigado, portanto, a sair da pensão, e, naturalmente perdido e desolado, fui parar em outra pensão, igualmente vagabunda. (É claro que se eu ligasse para minha mãe que morava em Minas e lhe pedisse, ela me mandaria para um hotel, desesperada. Mas mais do que nunca eu queria apanhar da vida, saber o que ela é, passar por alguma necessidade - a falta talvez nos conduza a uma suficiência.)

    Fazia-se ali um amontoado de quartos separados entre si apenas por biombos que sequer fechavam inteiramente um quarto do outro (por cima passavam luz e som). E eu, para piorar, não tinha roupa de cama, toalha, nada, nada! Pedi ao locador, ele me deu uma toalha que esqueceram lá, disse que sairia e que quando voltasse me emprestaria os lençóis e os cobertores.

    Ele dissesse que não demoraria, deu mais de meia-noite e ele não voltava!

    Como eu tinha aula no dia seguinte, me virei como pude. Deitei-me inteiramente vestido, sobre uma colcha fedida, como se não fosse lavada há um ano. Peguei uma jaqueta, e em uma das mangas pus os pés, na outra os braços, fiquei em posição fetal, imóvel, com frio e sozinho na cidade que me era o Ideal e a esperança.

    Embora já não os cresse, rezei uma Ave Maria e um Pai Nosso — como já fôra de costume. Não porque eu esperava uma intervenção divina, mas porque se trataria agora de um mantra do qual eu ainda não havia me despojado completamente. Não me interessava o que se dizia, eu sabia que eu estava buscando a “luz” e a “força” em mim mesmo, eu era ao mesmo tempo a criatura e a Criação.

    Depois nunca mais rezei.

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