Ainda de pé esforço-me no desejo de não sucumbir,
embora sucumbir cabalmente seja tudo o que desejo.
Reconheço-me entre papéis melancólicos e sinceros
que espreitam, deixam triste e escuro o dia.
A noite cai, porém se perpetua ainda o tiro no claro.
Paranóicas, as paredes perambulam o quarto,
e o quarto bem que poderia fugir por sua janela
feito uma bala nos miolos. O corpo pesa na mente pesada.
Em desordem pela escrivaninha, péssimos poemas
de vários momentos da vida, nada se remediou.
Há, sobre um criado-mudo cujas gavetas guardam
iminentes memórias, uma orquídea tenebrosa que resigna.
A verdadeira vontade de poder é dormir nem sonhar.
As horas passam e cada nova manhã
um inédito tiro no escuro da vida que se levanta,
toma banho, veste-se bem e ruma ao martírio
de encontrar o deus que não se vê nunca.
Nada me ascenderá a alma!?

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