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Do Desejo acorrentado

February 25th, 2007 · 1 Comment

Refugio-me em pensamentos
sórdidos, e a aurora, se expondo
sem pudor e distante, no abandono
da noite, evidencia Desalento,
postos sua astúcia maligna
de desiludir e seu escárnio
indecente ao pressentir a continuidade
do curso; entre um cigarro
e outro, fumaça e neblina, frio
e a brasa à ponta, que ilumina
e se reduz – o Sol
orgulhoso vem tomando (banhando)
para si as formas arquitetônicas
naturais e as assim construídas,
mas estanca no relevo de mim
mais próximo, em plano; e reflete,
e desaba,
inundando os arredores, relevando
a mim um círculo
boréu, feito perdoar-se a triste condição,
e basta-me a Noite para viver.

   *   *   *

O martírio de sórdidos
desejos: este céu pesado
em seu tom de anil que quase
já surge, em que pássaros
matutinos, num exílio, dançam
o ritual da cópula com o dia
e me escorraçam, pois
a Luz contaminei
com as Trevas,
mal sabendo os vingantes
que este de lua alumiado em náusea
eterna é um Prometeu
cuja sina é pairar no Vácuo
Inicial do mundo, devido
à tola blasfêmia de Supor,
embora não o cogitasse
(estava bêbado, respirava
sufocando-se); agora irrevogável,
pretensão tornou-se punição,
e dói-me o fígado pelo que não
refletirei.

Tags: Poesia

1 response so far ↓

  • 1 Manoela // Feb 27, 2007 at 19:23

    linda figuração da Aurora… sentaria com ela numa noite fria para tomar um vinho. E ela talvez amanhecesse como conta Ulisses: Aurora de róseos dedos… bjo!

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