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Os novos poetas brasileiros

October 10th, 2006 · 12 Comments

A literatura brasileira contemporânea, não é difícil dizê-lo, ainda não apresentou nenhum grande poeta; no máximo surgem uns escatologicos que parecem nunca ter lido Catulo ou Horácio, e acabam por encerrar sua poesia em algo que visa apenas a chocar o leitor; ou outros que, menos mal, ainda que apresentem uns poemas bonzinhos, ou não são propriamente autorais (talvez eu me inclua neste grupo) ou parecem ter digerido com tediosa preguiça a poesia que já se fez – muito embora seja mais consolador acreditar em falta de talento, não de leitura. (A falta de talento é perfeitamente aceitável, não se saber ler é absurdo, principalmente para quem quer ser poeta.) Geralmente, tratam-se de ambos os casos. Tais poetas não poderão nunca instigar um leitor atencioso.

É óbvio que eu não conheço toda a poesia contemporânea, pois, além de ser quase inútil, é muitíssimo difícil; e talvez por isto é que surgem jornais que almejam a descobrir quais serão os próximos Drummonds, Cabrais – diga-se, poetas de verdade – ou mesmo os novos marginais (no sentido o mais distante possível do gênio de Rimbaud).

Aonde chegará nossa poesia? E, porventura, os fazem só porque Fernando Pessoa publicou-se na efêmera Orpheu. Contudo, nesses jornais literários de hoje, há um grande espectro, uma terrível verdade, a de quem nunca bebeu de poesia. Esses poetas novos não sabem como tateiá-la.

Seus editores, bem-intencionados, até reconhecem a fraqueza de tal escrita, entretanto acreditam, acima de tudo, na democracia literária, acham que se devem haver espaços para os que desejam freneticamente o notório de uma publicação. E, não raro, espíritos pueris encantam-se com a vertiginosa possibilidade de, abruptamente, se tornarem poetas. Mas a única democracia é, antes de tudo, a de se ler os grandes autores. De resto, é demagogia, tal e qual a da política.

A propósito, dos novos poetas o que escreveu o poema mais significativo, entre o que já li, não é alguém que precise publicar um livro a cada ano por uma grande editora, ou um daqueles que criam o “círculo de leitores amigos do grande poeta tal” (muitíssimo embora este não possa ser senão – com grande bondade de minha parte – medíocre. E, se considerarmos que há nesses círculos o sumo dos novos leitores –e não seria mentira dizê-lo –, concluímos a fragilidade em que a poesia pende).

Esse talvez único novo poeta chama-se Emmanuel Santiago, é meu amigo, conheço-o de Ouro Preto, mas não é isso o que dá qualidade a seu poema Genealogia Persa, que seguirá abaixo. Ele é bom poeta, de futuro e já de algum presente. Não me estenderei, contudo, a um ensaio, ao menos por agora; seu poema explica-se. Leia-o com todo o direito a apreciá-lo.

Genealogia persa

Na difícil tessitura
do tapete persa, fez-se o jogo
de xadrez: cálculo absoluto,
como num conto de Borges,
bordado em elipses e labirinto,
leopardos em fuga geométrica
sobre a partitura.

Um trabalho análogo
ao do poeta: arquitetar
o obstáculo, o abstrato,
costurando obcecado
cada coágulo de silêncio
em corolário.

Carrossel barroco, o xadrez
antecipa a sextina de Arnault
Daniel, os hieroglifos oblíquos
dos poema de Mallarmé
e o artesanato cartesiano
sobre a pedra-sabão.

O que o poeta, sim,
aprende com o jogo de xadrez:
a ciranda sintática do carrossel,
o mar e o canavial, e vice-versa
(João Cabral, tecendo a manhã,
acaso não reproduz o processo
do tapete persa?).

Produto de estratégia
e tessitura, o poema,
trançado em arabescos,
se descortina descarnado
numa frágil e tênue teia.

(Emmanuel Santiago)

Tags: Poesia

12 responses so far ↓

  • 1 Manoela // Oct 12, 2006 at 3:22

    meu querido, depois que Danto proclamou o fim da arte, o fim da história linear, a arte vista pela ótica da filosofia, creio que muito da poesia também tenha mudado… perde-se por um lado, ganha-se por outro… e vamos nadando nessa geléia oceânica… de vez em quando, entre braçadas, tateamos algo substancial… substancial para uns, para outros não… fragmentos alegóricos talvez… bjo!

  • 2 Allan // Oct 13, 2006 at 2:59

    Conheci um grande poeta chamado Glaudium Bicheski (acho que tá faltando alguma letra). Faz muito tempo, uns trinta anos. Tínhamos mais ou menos a mesma idade e escrevíamos coisas parecidas. Nunca mais soube dele e, se ele não virou escritor, a literatura perdeu muito.

  • 3 Manoela // Oct 15, 2006 at 11:19

    quanto ao meu desenho, se eu tivesse grana e estivesse morando numa metrópole, gostaria de frequentar alguma boca só pra pagar para as prostitutas posarem pra que eu pudesse desenhá-las… como no século XIX… beijos!

  • 4 edu // Nov 30, 2006 at 16:17

    enquanto isso eu edito a minha diversão. Defendo seu direito de dizer tudo o que quiser, embora não concorde com nada, e até um pouco menos.

    Abraços editoriais embrulhados em jornais de quinta.

  • 5 Carlos matos // May 9, 2008 at 2:29

    Desacerto

    Há algum perturbado desacerto em seus olhos,
    Vejo a respiração profunda de um amor reprimido,
    No dia nascendo, vivo em seus sonhos,
    Do som na beira do rio tímido.

    Seu coração massacrado, cintilando fortemente,
    Corre dentro de mim, por vales e montes,
    Acendendo uma vela apoiada e descontente,
    Em lagoas mutantes.

    O tempo é curvo, teu pé é frio,
    A morte da dor, o interesse humano divide-o,
    No mar qualificado que beija o rio.

    Os desacertos autênticos são horrendos,
    As certezas aprovadas estão morrendo,
    Partindo e vivendo, o além.

    (Carlos Matos)

  • 6 Alan Daniel de Brito Mello // Aug 6, 2008 at 16:27

    O que é o errado se não a afirmação
    Do que pensamos ser o certo.
    Do contrário, quão direto seriam as
    Coisas intediantemente irrefutáveis;
    Inevitavelmente, ao decorrer do tempo, dispensáveis.
    Do que valeria a vida
    Se soubessemos o seu “irá acontecer”?
    Não haveria sentido.
    Ao menos que fossemos,
    E muito assim os somos,
    Covardes e mediocres em viver.
    Basta-nos e sacia-nos olhar a vida pela janela
    E vê-la passar ferozmente, sentindo apenas seu cheiro?
    Não obstante, do que vale dizer
    Belas palavras e não vive-las.
    Levando em conta, e desafio quem me prove o contrário, de
    Que possuimos apenas uma vida e a
    Jogamos no lixo da história.
    Então como devemos viver?
    Talvez numa lógica sem que haja lógica
    Numa razão sem que haja razão
    Numa constante curva, nunca em linha reta
    No desprazer do prazer
    Numa moral própria, que atenda nossas
    Individualidades e não uma moral que
    Nos é imposta.
    Enfim, viver a vida, como dizia Raul Seixas,
    Numa Metamorfose Ambulante.

  • 7 wilson roberto // Sep 2, 2008 at 20:41

    poetar,falar com a vida,brincar com as palavras
    ser desajuizado,partir do absurdo para o infini-
    nitivo sem constragimentos,viva Drumont,Joao
    Cabral, e todos os que escrevem e falam da vida
    e dos sentimentos,poesia é……………………………………………………………

  • 8 wilson roberto // Sep 2, 2008 at 20:47

    poeta guarda tuas palavras a inspiração te deichou, a tristeza apagou o brilho dos teus olhos
    o sonho acabou……………………………………………….
    oque adiantaria dizer isso para quem a poesia
    é a sua forma de falar da vida?

  • 9 Daniele // Sep 23, 2008 at 20:55

    Poetas são aqueles que pensam alto,
    Mas também aqueles que expõem suas idéias com certeza.

  • 10 Silvio Lucas // Sep 29, 2008 at 19:28

    Olá,
    outro dia, li um livro capa verde; estava esquecido no fundo de uma livraria no centro da Cidade do Rio. Amigos, o livro me impressionou! Caminhos de Poe(a)mar, salvo ledo engano, do poeta Merivaldo Pinheiro (o Sr. Lucas tomou emprestado e até agora não me devolveu o livro). Acho que ele é carioca e vive em Belém ou é paraense e vive no Rio. São poemas muito bons.

  • 11 Roidrigo // Oct 23, 2008 at 8:28

    Caro, conheço um outro grande poeta atual, Angel Cabeza. Ele é tão bom quanto os grandes já conhecidos. Sua poesia é simples, fontes de água.
    www.angelcesar.zip.net
    O conheci por meio da net e me apaixonei…

    Alguns poemas do blogo dele abaixo:

    Os homens sofrem como as pedras:
    cheios de musgo verde
    e caras feias.

    ++++

    Homenagem a Pixinguinha

    pois é no choro,
    no chorinha aguado da vitrola antiga
    que minha alma lava os seus
    esquecimentos.

  • 12 péricles barros // Dec 13, 2008 at 14:58

    Estamos saturados de versos
    eles estão em todas as esquinas e gavetas
    temos muitos versejadores
    seres de extrema qualquer coisa
    o que nos falta são os poetas
    a pura manifestação da palavra
    e apesar do que sentenciou Mario de Andrade
    ” Conto é tudo o que dizemos que é conto”
    será que tudo isso é mesmo poesia
    apenas por afirmamos?

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