Acabei de imprimir Os Paraísos Paralelos. Para quem não sabe foi o meu primeiro livro. Aliás, eu nunca fiz um livro. Os meus Paraísos foram uma reunião de poemas (a maioria apressada) para um concurso português que, como se vê, não cheguei perto de um resignador troféu e alguns euros. Na verdade, só publicariam o livro. E, como não tenho livro, melhor assim. Pode haver coisa pior do que se juntar a essa massa de poetas medíocres afoita em ter o nome estampado em uma edição “iscortéte”?
Sinto-me contente, agora. Faz uns seis meses que os poemas estão engavetados, inalterados, em estado de pós-pureza, virgens e incautos. Ah, que bom será rever isso! Rever a mim mesmo, rever a poesia, rever o que na época só eu julgava poesia. Rever o que devo resistir embora meus anseios poéticos já sejam totalmente outros. Talvez me valha exclusivamente pelo aprendizado; excessão por enquanto a um poema, Deus ex-machina, deus, que o Emmanuel, poeta e amigo, me trouxe à tona. Até por isso que eu fui resgatar meus poemas…
Hoje um outro amigo veio para casa e discutimos muito sobre literatura, mais espiritual que tecnicamente, se é que vocês me entendem. Bom que a conversa se remeteu logo a nós mesmos. “Conhece-te a ti próprio”. Que poeta não se conhece? Que há de mais difícil que se conhecer? Mas esse poema acaba que me ajuda em muitos problemas; eu tinha nesses últimos tempos um certo curso da minha poesia, e desviei. E, caso realmente eu venha a me (re)encontrar, nada deverá ter sido tão bom quanto esse desvio. O poema com breves alterações:
Deus ex-machina, deus
O que penso que sei e que posso
é uma artimanha dos deuses
Quanto mais me descobria tranqüilo,
é que tudo se impregnava
O ateu afinal lhes é a raça mais valiosa
porque os faz deleitar-se em um incrível escárnio
com o extremo oposto crente em provar
o contrário de toda a VERDADE. Ó pobrezinhos!
Sua ficção é uma realidade
como se não fosse o que nós queríamos,
e isso cai-lhe como uma luva, dominamo-lo!
à negação do afirmativo,
a afirmar a negação
sempre vou de encontro ao pressuposto de um oposto,
e eu estou convencido, quero isto
e aquilo (para não aceitar,
sequer negar)
e ter todas as certezas
de toda e nenhuma completude…
e eu também deles, pois seu Mito,
mais o mito que lhes sou:
Conviver, conveniência
— ao menos na necessidade
dos meus imaginários e tramas

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